Há cerca de seis meses que vivemos em Lisboa a miragem promissora de um mundo novo.
Há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, demasiada mesmo – tanta, que os
activistas e as «vanguardas» desta terra ensolarada não têm
a capacidade nem o génio de tudo gerir ao mesmo tempo: a resistência às
medidas de austeridade e consequente declive generalizado para a
miséria humana, a resistência à quebra de soberania imposta pela Troika
e pela UE, a defesa de um Estado social ferido de morte, a defesa dos
direitos humanos firmados ao longo de mais de um século e agora
sonegados pela barbárie neoliberal; e, ao mesmo tempo, a procura da
reinvenção de modelos e métodos de exercício da democracia directa e do
poder popular.
É um tempo aflitivo de acção urgente, de guerrilha política desesperada
pela sobrevivência dos mais elementares valores humanos, acumulado à
necessidade igualmente urgente de repensar modelos políticos,
ideológicos, éticos e democráticos, sem os quais toda a luta será vã,
tudo regressará à linha de partida no final do jogo.
Como se isto não bastasse, é preciso ter a paciência de esperar que
várias novas gerações que acabam agorinha mesmo de descobrir o
activismo político, gerações essas desde sempre arredadas da prática e
do exercício directo da democracia, completamente alheias às
experiências de democracia directa realizadas algumas décadas atrás,
arrogantes como todos os neófitos, façam o favor, paulatinamente, com tempo, de aprender, de reinventar a
roda, de redescobrir como se faz uma assembleia, um ponto de ordem, uma
equipa de trabalho, um debate fraterno entre ideias diversas reunidas
por uma vontade comum, etc.
E por fim, no caso daqueles que não nasceram apenas em Maio passado
para a política, mas que já há tempo participam em estruturas
organizadas onde buscam apoio logístico e teórico, e que se veem agora
postos perante acusações claras de imobilismo bacoco, de serem os
perpetuadores de vícios antidemocráticos, é preciso dar-lhes
tempo primeiro para tomarem consciência desses vícios de que foram
embebidos durante anos a fio, e depois mais tempo para se verem livres
deles, e por fim mais tempo ainda para se
realinharem e reconciliarem com aqueles que os acusaram. É obra. É muito tempo.
Tudo isto, nitidamente, é de mais para a cabecinha das supostas
«vanguardas» que por aí deviam andar à procura de um momento histórico
deste calibre, no fito de criarem uma situação pré-revolucionária.
Será ainda possível que 15 de Outubro seja todos os dias?
Para além de tudo o que já aconteceu nos últimos 6 meses, a questão que
se põe neste preciso momento é a seguinte: será possível que as pessoas
e movimentos que organizaram o 15 de Outubro em Lisboa prossigam o seu
trabalho de activismo político, que capitalizem esse extraordinário
momento de manifestação de indignações, revoltas e aspirações que foi o
15 de Outubro? Ou voltaremos a ter a mesma situação de 12 de Março de
2011? – uma massa humana impressionante, indignada, que no dia seguinte
se esvazia como um balão, sem rumo político?
Para que a continuidade (melhor, o crescimento) da luta possa existir, são necessárias várias condições:
- é necessário que os partidos de esquerda, com o PC à cabeça, não
realizem mais uma vez uma dessas estrondosas manobras de traição que,
embora básicas e toscas, sempre conseguem ter a eficácia tremenda de
desmobilizar a movimentação social; é que, reconheçamos, esses partidos continuam a ter uma influência tremenda nos movimentos sociais em Portugal;
- é necessário que o movimento unitário gerado à volta da
organização do 15 de Outubro de 2011 se mantenha – melhor, é necessário
que a correcção impecável do seu comportamento futuro permita um
alargamento, tornando-se um toque a rebate irrecusável, reunindo cada vez
mais gente e recursos;
- mas, para isso, é necessário que esse grupo heterogéneo (que, para facilitar, passarei a chamar aqui 15.O) redescubra um terreno comum (porque a manifestação já acabou, meus amigos, há que estabelecer novas metas) no qual se justifiquem e firmem as convergências unitárias;
- o que, por sua vez, só pode acontecer com a reinvenção de novos
métodos de confronto ideológico pacífico – porque já se provou neste 15.O que o
confronto ideológico de esquerda, paradoxalmente, nos pode levar muito mais longe que o monolitismo ideológico.
A cizânia dos grupelhos, tanto velhos como novos
A cizânia é uma praga invisível a olho nu que faz apodrecer as espigas de trigo e
destrói a ceara inteira. É precisamente a colheita de 15 de Outubro que está
em perigo, que vai apodrecendo rapidamente, sendo de recear que por fim
reste apenas uma gigantesca bosta.
Neste preciso momento toda a convergência, toda a energia política
gerada pelo 15.O está refém da cizânia entre dois grupos de grande peso
nesse processo espantoso que fez desembocar 100.000 pessoas em frente
do Parlamento, e que lhes despertou a consciência para o absurdo da
dívida nacional, para a necessidade da sua suspensão e investigação, e
para a força que o movimento social pode ter.
Dum lado temos alguns militantes vindos de organizações estruturadas (partidárias ou outras).
Doutra banda temos um conjunto de pessoas ditas independentes ou
apartidárias, boa parte delas bastante inexperientes, que
dizem procurar novas formas de exercício da democracia directa (ou
«verdadeira» ou «real», como dizem com a sanha valorativa que os tem
caracterizado).
Ambos os grupos são imiscíveis, não se podem ver sem entrarem num ataque desconcertante de histeria colectiva. Atacam-se com uma fúria fraticida raramente vista nos
últimos 30 anos de história do movimento social português. Julgam-se
perfilados em lados opostos duma barreira totalmente imaginária.
Quem está de fora desta luta sanguinolenta (e note-se que esta metáfora
do sangue está à beira de se tornar realidade, creio mesmo que já se terá tornado
realidade à socapa) nota, estranhamente, que ambos os grupos se acusam
exactamente da mesma coisa – golpadas, traições, infiltrações,
estalinismos e fascismos.
Têm, aliás, boas razões para o fazerem de parte a parte, porque as
atitudes objectivas que têm tomado – golpadas toscas (conscientes ou
inconscientes, tanto faz, o resultado é o mesmo), purgas, agressões
verbais e físicas, insultos, calúnias e acusações infundadas,
denegrição do bom nome, etc. – não são coisa aconselhável a sessões
juvenis e infantis, e todas elas apontam o caminho do Tarrafal ou do
Gulag.
Tendo feito uma vez a transcrição de alguns diálogos, verifiquei que,
se neles substituísse alguns piropos pseudo-políticos por frases comuns
de tasca, do tipo «és uma puta», «foste para a cama com o
inimigo/vizinho», «repete lá isso que eu rebento-te já aqui as beiças»
e outras carícias do género, não só o tom geral se mantinha, mas até o
sentido profundo do discurso permanecia incólume. Não se trata, de
facto, de verdadeiras divergências políticas (até porque ambos os
grupos aplicam métodos semelhantes de acção, portanto pode existir divergência retórica, mas não existe
divergência política), mas sim de destilar um ódio profundo vindo não se
sabe donde. É um caso clínico.
Para compreender o sentido profundo dos diálogos que se desenrolam
nas arenas onde estas duas turmas se defrontam, é preciso não prestar atenção às palavras (oh, como as palavras podem
ser enganadoras!), mas sim às posturas físicas que as acompanham, à
gestualidade, ao tom e melodia da voz, aos esgares faciais.
No meio desta guerra feroz ficam os «entalados» que ainda não foram purgados – uns «independentes»,
outros «organizados», tendo todos em comum duas coisas: a bondade de
carácter e a ausência de ódio fraticida, e a noção clara do momento
histórico que vivemos e da necessidade urgente de fazer guerra ao
inimigo verdadeiro: a banca, a política neoliberal, os poderes públicos
nacionais e europeus.
Estes «entalados», não podendo, por uma questão de princípio e de
honra, praticar a única solução imediatamente evidente (ou seja, purgar
os vândalos ali em luta e dar-lhes uma carga de pau correctiva),
encontram-se numa situação absolutamente desesperada – vêem a urgência
do momento histórico, vêem a estupidez incomensurável da cizânia, vêem
quão fácil seria definir neste preciso momento os terrenos e objectivos
comuns do processo unitário, mas... não encontram um método
politicamente aceitável de travar a ferocidade bélica que
objectivamente está a sabotar o processo de luta.
A falta de arte e engenho
Outra limitação do processo de luta, como já referi, é a falta de
génio. É claro que sempre é possível avançar na luta mesmo sem ter à
frente das hostes um conjunto de génios políticos – à falta de melhor,
o avanço faz-se lento, arrasta-se, embora desperdiçando oportunidades de ouro.
Vejamos um exemplo avulso:
Durante a assembleia popular realizada a 15 de Outubro em frente do
Parlamento, aconteceu subitamente que alguém veio ao microfone noticiar que a presidenta da Assembleia da República tinha mandado recado
dizendo que estava disposta a ouvir sugestões e reivindicações. Se era
isto verdade ou boato ficou por apurar; mas para o caso esse pormenor
não importa.
Entretanto gerou-se dentro da multidão um movimento de cidadãos que
teimou em invadir as escadarias de acesso ao Parlamento, justificando o
acto pelo seu simbolismo (de assalto ao poder). Nisto se desperdiçou
uma boa hora de esforços e energias mentais, para gáudio da comunicação social mais reaccionária.
Não houve um único «dirigente» político que fosse capaz de pegar no microfone e dar esta resposta à presidenta da AR:
O que nós queremos não é assaltar a sede simbólica deste modelo de
poder público que desprezamos. O que nós queremos é que os Srs.
deputados saiam desse local simbólico de poder corrupto e baixem a este local
simbólico de poder futuro, o poder popular reunido em assembleia na rua, e que no nosso próprio terreno ouçam as nossas acusações e reivindicações.
Nada. Nem uma palavra. Apenas dissenções e discussões sobre se nos
deveríamos sentar ou levantar, subir as escadas e andar à porrada com a
polícia ou prosseguir calmamente a nossa assembleia.
Nestas pequenas coisas, nestes relâmpagos de improviso perante a
realidade sempre surpreendente, se distingue o génio político do cão de fila conformista.