11/09/13

Uma política para as artes? (5)

[continuação da série sobre artes e cultura; ver artigos (1), (2), (3), (4)]


As condições subjectivas da criação artística

Ao fim do dia, depois de picar o ponto e atravessar o portão, o operário da fábrica de donuts pode pôr literalmente para trás das costas o trabalho e a fábrica. Pode ir para casa e dormir, brincar com os filhos, ver televisão, sem estar a ver em toda a parte e em todos os rostos donuts, sem pensar obsessivamente que outras formas e sabores poderiam ser concebidos, sem congeminar formas mais eficazes e baratas de produção.

10/09/13

Uma política para as artes? (4)

[continuação da série sobre artes e cultura; ver artigos (1), (2), (3)]

Escola, consumo, artes

A generalidade do público é remetido para a posição de mero consumidor e desconhece a realidade viva da criação artística. O consumidor – aquele que paga para ver um filme, ouvir um disco, visitar uma exposição, ler um livro – está para a produção artística como o consumidor médio americano está para os panadinhos de pescada pré-cozinhados – julga que aqueles cubinhos de peixe nascem assim na natureza, e quando um dia descobre o animal donde proveio o produto fica tão chocado que nunca mais come panadinhos.

09/09/13

Uma política para as artes? (3)

[continuação da série sobre artes e cultura; ver artigos (1), (2)]

Sobre os modos de produção artística

As variantes quer da organização do trabalho artístico quer da situação subjectiva do artista são virtualmente infinitas. Digamos que no limite cada obra e cada autor constituem um caso específico. No entanto, quanto aos modos de produção, podemos distinguir dois grandes grupos:
  • Num extremo temos a produção artística individual, inteiramente controlada e organizada por um autor solitário; podemos neste caso falar de um modo de produção individualizado e independente, em certa medida comparável ao artesanal.
  • No outro extremo temos um modo de produção colectivo em que a organização do trabalho artístico e os respectivos meios de produção são dominados por uma gestão empresarial; podemos neste caso falar de uma produção industrial e de um fenómeno de proletarização do trabalho artístico.
Entre estes dois extremos encontramos uma multidão de casos específicos, como é próprio das artes.

06/09/13

Uma política para as artes? (2)

[Nota: É favor consultar artigo anterior, para contextualizar o actual.]
Onde se celebra o centenário de 1913 e se distribuem umas chapadas em honra da Sagração da Primavera.

Uma política para as artes? (1)

Uma polémica recente na blogosfera a propósito de uma performance reacendeu-me na memória um facto que quanto mais se afirma mais tende a tornar-se invisível: há na cultura portuguesa actual um vazio, uma ausência de pensamento revolucionário sobre as artes e a cultura – e portanto uma ausência de programa entre as hostes que pretendem construir uma sociedade nova e melhor.

31/08/13

Fecha as pernas, que vêm aí as gaivotas

Estávamos acampados numa praia de nudistas – esse lugar onde, ao fim dos 3 dias que olhos pedem para se acostumarem à luz, se revelam belos os mais improváveis corpos, porque só sob a exuberância da luz nua se pode exercer o olhar que o urbano pundonor cega.

Estávamos ociosamente estendidos ao sol – eu, a minha namorada, e a namorada da minha namorada. Era essa hora poente em que as gaivotas, talvez atraídas pelo cheiro dos peixes que os pescadores abandonam no areal, decidem patrulhar as areias, aventurar-se mesmo à beirinha dos banhistas, como se fossem bicá-los, e lançar aqueles gritos de duvidoso significado, se retirarmos da cena a imagem que lhes identifica a origem.

Nisto, diz a minha namorada à amiga: «Fecha as pernas, que vêm aí as gaivotas.»

E de facto, dou-me conta então – e só então, e não daria, não fora esta observação (ou piropo?) da minha amiga – que flutuava no ar um cocktail de odores especioso, feito de eflúvios de maresia e vulva (não sei já dizer qual delas), uma miscelânea duma elegância rara, irresistível, inebriante e langorosa no mesmo lance.

É preciso guardar gratidão eterna a essas pessoas que têm a qualidade rara de nos atirar frases destas, de nos impor o óbvio, que fazem os cegos levantar-se e ver, e sem as quais permaneceríamos mutilados de nós mesmos toda a vida.

30/08/13

O perigo umarino deve ser espezinhado aos pés e deitado aos cães

[Actualização em 6/09/2013: Uma parte deste artigo baseou-se na apreciação de um acontecimento que eu apenas conhecia por interposto testemunho. Foi um erro, evidentemente, como veio a provar-se quando vi o vídeo da intervenção em questão, onde uma militante feminista fala sobre a questão do assédio e a situação da mulher. Por desconhecer o sentido de algumas palavras em português (creio eu) e por infelicidade de linguagem (creio eu outra vez) inerente ao risco da improvisação em público, a apresentação contém deslizes que não deixo de apontar, por roçarem atitudes extremas de normatividade e criminalização de comportamentos que me levam, por exemplo, a não querer viver no Irão. Mas de uma maneira geral defende uma tese geral obviamente correcta: o direito das mulheres a usufruírem o espaço público sem se sentirem ameaçadas e não deixarem passar em claro os abusos e violências de que são vítimas. Perante isto, o meu artigo talvez pudesse ser reformulado ou substituído. Como sou contra a manipulação da história, mantenho o registo de um artigo que já foi publicado.]

26/08/13

O que é a classe média – adenda

Ensaiei no artigo anterior uma redefinição abreviada e actualizada de classe média. Fi-lo de forma sumária, como convém ao formato de um blog.

A minha motivação foi simples: ainda que se considere duvidoso o interesse de definir um conjunto de classes médias, a utilização desse conceito é corrente no vocabulário quotidiano e recorrente na propaganda ideológica de todas as cores; já que não podemos eliminar o conceito (e a propaganda), ao menos tentemos corrigi-lo e construir um conceito operacional em termos políticos.

A redefinição proposta de «classes médias» levantou numerosas objecções, fosse pela sua brevidade (que exigia alguma reflexão e «trabalho de casa» do leitor), fosse pela sua novidade. Em atenção a alguns desses objectores acrescento agora, mais uma vez de forma abreviada e parcelar, alguns apontamentos dispersos.