02/11/13

Nunca mais começa a guerra civil?

A quantidade de meios de produção, obras de arte, monumentos, hospitais, escolas e habitações destruídos pelas duas guerras mundiais – para não falar já no essencial, que são as vidas humanas perdidas – foi avassaladora. As imagens dessas perdas são de tal forma fortes, que ao olharmos para elas o coração nos dá um solavanco na caixa do peito. A destruição foi efectuada através de bombardeamentos e outros meios de destruição maciça; deixou para trás cidades inteiras arrasadas. Como é sabido, quando a taxa de lucro do capital cai drasticamente, a guerra é o seu remédio santo – depois das duas grandes guerras a «economia» (leia-se o lucro privado) entrou em espectacular recuperação. 


Mas os tempos mudam, e de que maneira! Para entendermos o que se passa hoje, teremos de analisar os acontecimentos à luz das profundas transformações operadas nos recursos e nos métodos de guerra nas últimas décadas.

 

26/10/13

O concerto de S. Bento


Decorreu hoje em Lisboa uma manifestação convocada pelo QSLT, com concentração no Rossio e ponto final em S. Bento, frente ao Parlamento. Por razões de idade e de saúde, é para mim um sacrifício considerável acompanhar manifestações, em especial daquelas que percorrem quilómetros, com subidas e descidas, passo de caracol, paragens constantes. A manifestação de hoje foi desse tipo, apenas evitando subidas e descidas, mas à custa de uns quantos quilómetros mais de percurso nesta cidade feita de colinas. Sobram os apoiantes de sangue na guelra, fica de parte uma boa metade da população potencialmente apoiante (olhem para a pirâmide etária do país, seus broncos), bem como todos os casais jovens com crianças. Isto, numa época em que é mais fácil mobilizar um idoso reformado do que um jovem estudante de Direito...

Cheguei bastante atrasado ao Rossio - a cabeça da manifestação já tinha arrancado. Reparei que a polícia, desta vez, não tinha adoptado uma atitude ostensiva e agressiva - um mistério que se resolveria daí a duas horas.

17/10/13

Solidão, emoção, militância

 

Num banco de jardim sigo desconfiado o deambular desses ratos com asas que dão pelo nome de pombos, enquanto aguardo a chegada do meu amigo. Esta espera forçada pelo atraso alheio, que muitos consideram um dos pecados maiores da má-criação nacional, quero eu encará-la nesse instante como uma dádiva – um momento de ócio, por oposição a negócio.

13/10/13

Mudanças do paradigma eleitoral em 2013

Aqui vos deixo uma análise estatística das eleições autárquicas de 2013, da autoria do meu amigo Rui Viana Pereira. (corrigido e reformulado em 16/10/2013)
=====================

Procuro neste texto apresentar um estudo sucinto sobre os resultados das eleições autárquicas de 2013. Antes de entrar na análise dos dados, convém chamar a atenção para algumas condicionantes (ver anexo «Considerações e notas metodológicos» para mais detalhes):

12/10/13

Pequena etimologia da estética e da ética

Etimologia é uma palavra erudita, composta a partir das palavras gregas étimo (= verdade, significado verdadeiro) e logos (= discurso, razão). Designa, portanto, o estudo do verdadeiro significado das palavras. Com o correr do tempo e da linguística, passou a designar também a evolução semântica Assim, do ponto de vista erudito o verdadeiro significado duma palavra reside na sua origem, temperada e acrescentada pela sua história ao longo do tempo e das culturas por onde passou.

Buscando a etimologia de estética e de ética, rapidamente concluímos que estética refere o que é belo e ética (ou moral, na versão latina) refere o que é bom em matéria de comportamentos e costumes.


Aqui chegados, o problema com que nos deparamos é o seguinte: verdade designa, já na sua própria etimologia, um sistema de valores. Ora o que tem valor para mim pode não ter valor para ti; por outras palavras, o que é verdadeiro para mim pode ser falso para ti. A ciência procura fugir a este beco sem saída partindo do princípio que há coisas que são válidas (= têm valor, são verdadeiras) para toda a gente – por exemplo, a «força da gravidade» é válida para todos, incluindo os que levitam. Mas afirmações como «esta vivenda é bela», ou «deve-se dar passagem às damas», não podem ser consideradas verdades universais. O seu valor depende de quem as aprecia.

Ou seja: toda a estética e toda a ética suscitam a pergunta «para quem?». Se eu afirmo «isto é belo», tenho de admitir que alguém pergunte logo de seguida: «para quem?». Se eu afirmo «isto é ético», ou «isto é imoral», tenho de admitir que me interpelem: «para quem?».

Ora eu adopto uma definição minimal e suficiente de política: é a arte de colocar, em todas as circunstâncias da vida social, a pergunta «para quem?» – de tal forma que a política se torna a única forma de virar costas às abstracções e generalizações desumanizantes para regressar à materialidade e identidade de cada ser humano. Se me dizem «este imposto é justo», imediatamente pergunto: «para quem?». Por conseguinte tenho de concluir que a estética e a ética têm carácter profundamente político.

12/09/13

Uma política para as artes? (7)

[continuação da série sobre artes e cultura; ver artigos (1), (2), (3), (4), (5), (6)]

A experiência adquirida ao longo das últimas décadas mostra que, apesar de tudo o que diz a maledicência tão comum na cultura portuguesa, é possível desenvolver uma política útil de apoio à criação artística e os seus resultados podem atingir um nível notável. Infelizmente o apoio à divulgação internacional desses resultados não foi o devido, deixando isolados quer os artistas quer o próprio esforço de financiamento público.
É preciso ter em conta que o resultado dos apoios públicos pode (consoante as circunstâncias) levar anos a revelar-se.
Tentemos sumariar as linhas gerais do que ficou dito nas secções anteriores e esboçar algumas conclusões genéricas.

Uma política para as artes? (6)

[continuação da série sobre artes e cultura; ver artigos (1), (2), (3), (4), (5)]

Outra forma de colocar a questão: o risco


Poucas pessoas terão noção do tempo e das experiências fracassadas que uma pequena descoberta terá custado a um investigador científico. O que fica para a história é esse breve momento de sucesso, frequentemente ao cabo duma resma de experiências fracassadas. Mais ainda: muitas descobertas foram originadas por erros cometidos no processo de investigação.

A situação do artista de vanguarda é em tudo semelhante – uma descoberta importante no campo das artes pode custar uma vida inteira de trabalhos; e, por outro lado, um erro na utilização técnica dos pincéis, ou duma câmara, ou dum piano pode dar origem a descobertas inesperadas. No limite, porém, temos de admitir que o artista ou o cientista passem a vida inteira a trabalhar e morram sem chegar a nenhum sucesso digno de nota.

O que há de comum entre ambos é o experimentalismo, a assunção do risco e uma enorme quantidade de trabalho. Assumir o risco, contudo é a única forma de sair do grau zero civilizacional.

O risco e o experimentalismo são uma qualidade distintiva da arte de vanguarda, e isso mesmo a distingue da arte mainstream.

É costume dizer-se que o que caracteriza o investidor (capitalista) é a disponibilidade para assumir riscos. Nada mais contrário à realidade (mais uma vez: não tomemos as excepções por regra). Conheci pessoalmente um candidato a empresário que nos anos 50 teve uma série de ideias inovadoras em Portugal: fez um aviário com pintos, e depois uma «plantação» de caracóis, e assim por diante, sempre com o mesmo resultado: falência – a iniciativa era demasiado inovadora, demasiado precoce na história da evolução social portuguesa. Mas, apesar do entusiasmo que este exemplo possa suscitar, é fácil constatar que 99,99% dos investidores apostam onde de facto não há risco. Aquilo a que eles chamam risco é outra coisa, da qual ninguém está a salvo: um azar. Um azar é uma ocorrência imprevista onde tudo fazia prever o sucesso. Um risco, ao invés, é uma iniciativa que avança de peito aberto para o fracasso, a não ser que tudo corra inesperadamente bem.

O risco e o experimentalismo são parte essencial da arte de vanguarda. Ou, dito doutra forma: o risco e o experimentalismo de hoje podem ser a fórmula de sucesso de amanhã.

Podemos atacar a arte de vanguarda, retirar-lhe as condições de apoio, acossá-la como um animal e impedir a sua expressão – mas nesse caso temos de estar preparados para nunca evoluir para além da pintura rupestre.

Se, pelo contrário, quisermos dar-lhe uma oportunidade, temos de estar preparados para uma coisa pouco acessível aos cobardes: assumirmos também nós um risco, ao apoiarmos a aplicação de recursos públicos no apoio a quem produz a arte de vanguarda – mesmo sabendo que é muito difícil defini-la e identificá-la; mesmo sabendo que talvez estejamos a sustentar alguém que, apesar de trabalhar afanosamente toda a vida, pode jamais conseguir produzir um trabalho de valor assinalável. O problema é que, se não aceitarmos o risco... enfim, já ouviram dizer que «quem não arrisca não petisca»?

Quanto maior for a acumulação de riscos (e portanto de apoios e financiamentos) tanto melhores serão as hipóteses de obtermos bons sucessos. Isto deve-se não só à lei da probabilidade, mas também, ou sobretudo, ao fenómeno do limiar de massa crítica.

[continua no próximo artigo]

11/09/13

Uma política para as artes? (5)

[continuação da série sobre artes e cultura; ver artigos (1), (2), (3), (4)]


As condições subjectivas da criação artística

Ao fim do dia, depois de picar o ponto e atravessar o portão, o operário da fábrica de donuts pode pôr literalmente para trás das costas o trabalho e a fábrica. Pode ir para casa e dormir, brincar com os filhos, ver televisão, sem estar a ver em toda a parte e em todos os rostos donuts, sem pensar obsessivamente que outras formas e sabores poderiam ser concebidos, sem congeminar formas mais eficazes e baratas de produção.