De tudo aquilo que se viu, disse, escreveu e leu sobre a manifestação das forças de segurança, na passada quinta-feira, em frente à Assembleia da República, há um triste episódio que passou despercebido, talvez por ter sido apenas visto na antena da Sic Notícias, num directo do Jornal das 9.
Após os manifestantes terem subido, de forma ordeira e pacífica, as escadarias da Assembleia da República, surge nos ecrãs um manifestante que começa por insultar todos os seus colegas de profissão que, por convicção, por falta dela, ou por qualquer outro motivo, não puderam, ou não quiseram, estar presentes naquele protesto, vociferando que "os cobardes ficaram em casa".
Como se isto já não fosse suficientemente grave, o mesmo manifestante decide apontar baterias a um alvo que nada tem que ver com os motivos que o levaram ali e começa a berrar "porcos pretos prá África!", como podem confirmar no vídeo abaixo.
«Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa: salvar a humanidade.» - Almada Negreiros
25/11/13
Xenofobia impune na Polícia?
Dada a gravidade criminal e política dos actos praticados por alguns agentes das forças policiais (vulgo «autoridade») e a perspectiva de permanecerem impunes como de costume, aqui reproduzo um artigo publicado pelo Pensador Zarolho:
23/11/13
Os pauliteiros e o beco
Há uma parte importante da história verdadeira, não mitificada, do PREC que está por fazer. Verdade seja dita, há imensas partes. Mas esta que aqui quero recordar considero-a particularmente importante, pois é uma das principais fontes de fragilização de todo o processo revolucionário em curso (PREC) durante 1974-1975, senão a de maior caudal. Refiro-me à enxurrada de candidatos a militantes que assaltou os partidos logo a seguir ao 25 de Abril de 1974. Por essa época os militantes e quadros partidários formados durante a resistência à ditadura totalizavam uma ninharia de gente, face à efervescência popular e ao número de frentes de luta, que aumentava todos os dias a olhos vistos. Perante a sua própria falta de recursos humanos, os partidos cederam à gula e puseram-se a distribuir cartões a torto e a direito – um recorde que só viria a ser vencido anos mais tarde, com a distribuição indiscriminada de cartões de crédito bancário.
Disse partidos, em geral e abstracto; mas de facto interessa-me sobretudo falar dos partidos de esquerda, pois apenas destes tenho algum conhecimento directo. A enxurrada de candidatos a militantes engordou uma parte dos partidos (os «grandes») – estou a lembrar-me, por exemplo, da UDP e do PCP. Os outros, aqueles que por cautela ou desconfiança apenas abriram uma nesga da porta, e ainda assim sempre perguntando pelo santo e senha, mantiveram uma dimensão diminuta. Isso lhes valeu, durante as 4 décadas seguintes, serem gozados e amesquinhados pelos «grandes». Ser pequeno tornou-se um anátema.
21/11/13
Representações opusdeificadas da ideia de sexualidade
Passou uma semana de tiradas de bloguistas,
articulistas e comentadores de esquerda sobre a sexualidade e a
indústria do machismo, como se pode ver aqui
(1,
2,
3,
4,
5,
6,
7,
8,
9)
(obrigado pela listagem, Renato).
Há muito alguns destes autores deveriam ter feito um pacto de
silêncio sobre dois (pelo menos) territórios: a arte
e a sexualidade. Poupar-se-iam assim a figuras tristes. Poupar-me-iam
a mim ao pesadelo de os imaginar um dia com alguma espécie
de poderes sobre o território artístico, moral e comportamental das
nossas vidas.
Sobre a ausência de pensamento em matéria de
artes, já
disse, numa
série de 7 artigos. Sobre a presente questão da sexualidade e
da exposição do corpo, a resposta é mais difícil. É difícil, em
primeiro lugar, porque os textos em questão são na sua generalidade
indecifráveis, retorcidos e incoerentes. De que raio estão eles a
falar, ao certo? Por fim damo-nos conta de que a dificuldade provém
do rebuscado rebuço com que expõem o tema – o rebuço de quem
quer falar do assunto, zurzir nos pecadores, mas se vê enredado numa
mortalha de vergonha que não permite dizer tudo às claras (creio
não estar a fazer nenhum julgamento de intenção).
Na impossibilidade de extrair algum pensamento
coerente desses arrazoados, escolho umas quantas citações
avulsas.
19/11/13
Dicionário do charme político: desenvolvimento
Muitos termos usados pelos políticos profissionais e pelos poderes públicos vencem pelo charme e matam pelas consequências.
Este dicionário do charme político está em vias de construção lenta e por fases.
Verbetes anteriores: economia ;
Desenvolvimento
Etimologia
Temos aqui escondida uma raiz mínima: volver (dar voltas). A partir dela se formaram e evoluíram conceitos tão variados como envelope, evolução, revolta, revolução, envolver, … Esta diversidade de derivados mostra que a evolução histórica e cultural dos conceitos é uma parte fundamental da etimologia. No caso particular do desenvolvimento, temos que partir da ideia de envolver/envelope – dar voltas a uma coisa para a enroupar em algo; comprometer alguém num determinado âmbito de interesses. O moderno conceito de desenvolvimento é indissociável da ideia de continente; dizer que uma corrente de ar se desenvolveu numa gripe contém a ideia de que algo (neste caso um vírus) que estava contido foi libertado do seu invólucro protector, provocando uma cadeia de reacções.
Uso actual
A origem e utilização do conceito político de desenvolvimento tem origem (tanto quanto sei) no discurso de tomada de posse do presidente norte-americano Truman:
«O velho imperialismo – a exploração para enriquecimento estrangeiro – não faz parte dos nossos planos. Concebemos um programa de desenvolvimento baseado nos conceitos de justiça e fair-dealing democrático. Todos os países, incluindo o nosso, teriam muito a ganhar com um programa construtivo para melhorar a utilização dos recursos humanos e naturais» [Harry S. Truman, 20-01-1949] *
Dicionário do charme político: economia
Muitos termos usados pelos políticos
profissionais e pelos poderes públicos vencem pelo charme e matam
pelas consequências.
Este é um dicionário do charme político, em
vias de construção lenta e por fases.
Economia
Etimologia
Os gregos chamavam «oikos» à casa, incluindo
todo o seu conteúdo e administração; chamavam ao administrador
desse conjunto de coisas «nemó». Formou-se assim a palavra
«okomos», que designa a administração da casa. A palavra «nomos»
designava o acto de contar, ou atribuir, ou distribuir. O sufixo
«-ia» indica a qualidade duma coisa. Portanto «economia» designa
originalmente as funções de contabilidade e gestão da casa, e
circunscreve um âmbito pessoal e patrimonial. Como todas as raízes,
esta contém em si a génese da verdade das coisas designadas. A raiz
permanece; sem ela a palavra não poderia sobreviver. Mas no decorrer
do tempo, das culturas e da História o termo foi desabrochando em
novos sentidos. Em 1615, em pleno absolutismo monárquico, Antonio de
Montcheretien propôs que, sendo o conceito de economia aplicável à
administração do Estado (a casa real), deveria introduzir-se a
ideia de «economia política». Mais tarde William Petty publica a
Aritmética Política; e por
fim Adam Smith publica em 1776 A Riqueza das Nações,
trazendo definitivamente o conceito para o âmbito da coisa pública;
não por acaso, a Inglaterra adiantava-se então na senda
industrial e capitalista. O nome de relevo que geralmente é indicado
a seguir é o de Alfred Marshall, que em 1890 publica os Princípios
de Economia. O nome que
geralmente fica ocultado
é o de Karl Marx, que dedica
uma vida inteira a reconduzir o estudo da economia à categoria de
ciência e por volta de 1867
publica o Livro I de O Capital.
Marx torna
clara a associação dos
modelos económicos e de
produção (ou mais exactamente os modelos de apropriação e gestão
dos meios de produção) aos factores
determinantes (de base) que estruturam uma sociedade de
alto a baixo. De
facto, no que respeita ao presente artigo, a
primeira coisa a assinalarmos na
versão moderna da
expressão «economia»
é a sua adequação à fase actual do modo de produção
capitalista.
14/11/13
Proponho uma revisão da estátua da república, tomando como modelo mariano a Brigitte Bardot
Cada vez mais ouço, ao passar por esquinas e portais, senhores de pasta e gravata enfiada em casacos de azul-escuro e de mau corte dizerem que «é preciso esquecer a Constituição». Referem-se, julgo eu, à suspensão de normas fundamentais em benefício de determinadas práticas favorecedoras de determinados interesses económicos (senão, porquê a pasta, o azul e o mau corte?).
Estas conversas mantidas à esquina do tempo, que
imagino seja o da espera pelo boss
ou pelo motorista, são em tudo semelhantes às dos bêbados que,
em estado já neuronicamente
diminuto,
nas tascas dão lições técnicas ao treinador do seu clube de
futebol favorito, não fazendo
a mais pequena ideia do que estão a falar. Ficamos assim a saber que
há muito não se ensina na escola uma coisa básica: o que é uma
constituição e para que serve.
02/11/13
Nunca mais começa a guerra civil?
A quantidade de meios de produção, obras de
arte, monumentos, hospitais, escolas e habitações destruídos pelas
duas guerras mundiais – para não falar já no essencial, que são
as vidas humanas perdidas – foi avassaladora. As imagens dessas
perdas são de tal forma fortes, que ao olharmos para elas o coração
nos dá um solavanco na caixa do peito. A destruição foi
efectuada através de bombardeamentos e outros meios de destruição
maciça; deixou para trás cidades inteiras arrasadas. Como é
sabido, quando a taxa de lucro do capital cai drasticamente, a guerra é o seu remédio
santo – depois das duas grandes guerras a «economia» (leia-se o
lucro privado) entrou em espectacular recuperação.
Mas os tempos mudam, e de que maneira! Para
entendermos o que se passa hoje, teremos de analisar os
acontecimentos à luz das profundas transformações operadas nos
recursos e nos métodos de guerra nas últimas décadas.
26/10/13
O concerto de S. Bento
Decorreu hoje em Lisboa uma manifestação convocada pelo QSLT, com concentração no Rossio e ponto final em S. Bento, frente ao Parlamento. Por razões de idade e de saúde, é para mim um sacrifício considerável acompanhar manifestações, em especial daquelas que percorrem quilómetros, com subidas e descidas, passo de caracol, paragens constantes. A manifestação de hoje foi desse tipo, apenas evitando subidas e descidas, mas à custa de uns quantos quilómetros mais de percurso nesta cidade feita de colinas. Sobram os apoiantes de sangue na guelra, fica de parte uma boa metade da população potencialmente apoiante (olhem para a pirâmide etária do país, seus broncos), bem como todos os casais jovens com crianças. Isto, numa época em que é mais fácil mobilizar um idoso reformado do que um jovem estudante de Direito...
Cheguei bastante atrasado ao Rossio - a cabeça da manifestação já tinha arrancado. Reparei que a polícia, desta vez, não tinha adoptado uma atitude ostensiva e agressiva - um mistério que se resolveria daí a duas horas.
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