Saindo da toca uns quantos salvadores do país e da democracia, logo se puseram num berreiro contra a falta de democracia, o desconchavo das contas públicas, o aperto que o povo sofre e outras maleitas resultantes da governança. Sendo que por acaso foram eles ou padrinhos, ou mandantes, ou executantes do golpe militar do 25 de Novembro de 1975, que derrotou as experiências de democracia directa e instituiu o Estado de direito e a democracia representada, da qual continuamos a padecer ainda agora - e independentemente de alguns dos seus berros terem razão de ser -, creio que é muito boa ocasião para citar Eça de Queirós. Eu sei que já vamos na milésima citação deste mesmo texto, mas ainda assim não deixa de vir a propósito.
Há muitos anos que a política em Portugal
apresenta este singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos,
alternadamente, possuem o poder, perdem o poder,
reconquistam o poder, trocam o poder ... O poder não
sai duns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos
quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor
de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no
poder, esses homens são, segundo a opinião e os dizeres de
todos os outros que lá [não] estão, os corruptos, os
esbanjadores da fazenda, a ruína do país.
Os outros, os que não estão no poder,
são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais, os
verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do
povo, e os interesses do país!
Mas, coisa notável! – os cinco que estão no
poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os
esbanjadores da fazenda e a ruína do país, durante o maior
tempo possível! E os que não estão no poder movem-se,
conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem
– os verdadeiros liberais, e os interesses do país!