Os contras eram um «empreendedor» chamado Miguel
Gonçalves (um descarado furão à vista desarmada) e um jurista
chamado Rodrigo Adão da Fonseca com tiques neofascistas exibidos de
forma bastante cândida. No campo oposto, Raquel Varela,
historiadora, com uma capacidade argumentativa e um acervo de
informação objectiva invulgares; e um empresário benévolo, Pedro
Carmo Costa. É impossível não suspeitar que a configuração desta
edição do programa tenha sido propositadamente desequilibrada em
favor da defesa dos trabalhadores deste país e da destruição da
imagem dos «empreendedores» furões.
«Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa: salvar a humanidade.» - Almada Negreiros
12/03/14
Um empreendedor é um furão, já lá diz o dicionário
O programa «Prós e Contras», da RTP-1, costuma
dividir os convidados em dois campos. Na última
edição – dedicada à fuga dos portugueses para o
estrangeiro, ainda que não se abram as águas do canal da Mancha –
havia o campo dos que acham que há pró-razões para os
trabalhadores fugirem de Portugal a sete pés e o campo dos que
contra-acham que está tudo bem.
29/01/14
12/01/14
Acreditas nos OVNIS?
Já tive de responder tantas vezes ao longo da vida a esta pergunta, que vou simplificar as coisas escrevendo a resposta duma vez por todas nesta página, onde os curiosos acerca das minhas crenças poderão encontrar a devida explicação, poupando-me a maiores gastos de tempo e energia.
03/01/14
Quem não sabe da metodologia e dos princípios não devia armar-se em docente do ensino superior
Um artigo
de Mário Branco sobre o direito ao trabalho deu-me volta ao
estômago. O que me provoca engulhos em «Direito ao Trabalho (4ª
parte)» é sobretudo (porque muito mais haveria a apontar) o
seguinte:
- A ideia de que vivemos numa sociedade livre, e de que a liberdade pode ser definida em função da liberdade de votar, de ser eleitor e de pedir responsabilidades aos eleitos (no acto eleitoral seguinte, supõe-se).
- A ideia de que todo o cidadão é culpado até prova em contrário.
- A ideia de que o trabalho é, e deve continuar a ser, um importante factor de socialização, aprendizagem e disciplinamento social.
Sobre o primeiro ponto não vou deter-me desta
feita. Nos dois pontos seguintes reside a causa principal do meu
enojamento, e é aí que quero centrar-me.
Bolas para a causalidade
Maravilhosa associação, bolas para a associação
O cérebro humano nasce com uma espécie de
hardware de
origem que dá pelo nome de
associação. Esta
capacidade
de estabelecer associações
entre diferentes objectos é
emulada
em certas
linguagem de programação (por exemplo em Smalltalk) por uma função
que dá precisamente pelo nome de «association»
e que é representada da seguinte forma: chave → valor.
Ou seja, a uma determinada chave/apontador corresponde um outro
objecto.
Estas associações, por sua vez, agrupam-se em grandes conjuntos
para formar aquilo que se chama,
na linguagem de
Smalltalk – tal como na
linguagem corrente – , um
dicionário.
É claro que o
cérebro humano funciona de modo muito mais sofisticado que o
Smalltalk, mas o princípio
fundamental é
o mesmo: o
estabelecimento de
ligações permanentes entre
objectos (ou representações desses objectos), criando entre eles
canais que permitem encontrar
um por intermédio
do outro e enviar mensagens de um para outro.
Esta
habilidade basilar
permite fazer maravilhas,
a começar pela fala, que
estabelece
uma ligação permanente entre um som
e um objecto.
À
partida não tem de haver nenhuma relação –
lógica ou outra – entre os
objectos duma associação;
é o nosso cérebro que a estabelece casualmente,
e se necessário contra toda a lógica. Na
verdade, para que haja uma associação verdadeira é necessário que
ambos os objectos sejam distintos e autónomos.
Aqui deparamo-nos
com o primeiro perigo, ligeiramente
demencial: começarmos a
confundir a chave com o objecto que lhe
está associado. É assim que
certas pessoas (seja por ignorância, seja por um mau funcionamento
qualquer do seu hardware)
rompem a autonomia que deve
existir entre a palavra e o objecto que ela designa,
começando
a baralhar e intermutar as
respectivas propriedades dos
objectos, numa reacção de
associações em cadeia –
o verde adquire o valor da esperança, o Emanuel adquire qualquer
coisa de divino, Vénus adquire mamilos e, sabe-se lá porquê,
talvez por simples associação sonora, a vizinha Vanessa torna-se
desejável e boa como o milho.
17/12/13
Medina Carreira: licença para matar
Medina Carreira voltou a atacar os reformados, esta semana. No
programa «Olhos nos Olhos», da TVI24, veio dizer que o Estado tem
de pagar as reformas a 3,5 milhões de portugueses; e que no espaço
de 30 anos (entre 1970 e 2010) o número de pensionistas subiu de 250
mil (na verdade 260 mil) para 3,5 milhões. A desonestidade intelectual deste aldrabão
com assento permanente na televisão é escabrosa.
Em primeiro lugar, dizer que o número de
reformados subiu entre 1970 e 2010 de 250 mil para 3,5 milhões
deveria ser motivo de júbilo, e não de alarme. Da mesma forma e no
mesmo espaço de 30 anos,
- a taxa de analfabetos desceu de 25,7 % da população para 5,2 %;
- a mortalidade infantil desceu de 55,5 ‰ para 2,5 ‰ (mas agora está a voltar a subir: 2012 = 3,4 ‰);
- o número de pessoas com ensino secundário subiu de 3,8 % da população para 71,4 %;
- o PIB per capita passou de € 5.612 mil para € 15.414;
etc.
[todos os dados: recolha rápida na base de dados Pordata]
Por outras palavras: o nível médio de miséria,
abandono, falta de bem-estar e falta de escolaridade desceu de forma
considerável ao longo de 30 anos; o rendimento colectivo disponível subiu largamente, o que permite pagar pensões e outros factores de bem-estar. No início da década de Setenta, a maioria das pessoas, ao
entrar na idade em que deixava de ser útil ao patrão, ficava sujeita a difíceis (senão mortais) condições de sobrevivência ou passava a depender duma caridade discricionária – situação
para a qual Medina Carreira quer atirá-las de novo e sem meias
palavras. O número de pessoas que descontava para uma caixa de pensões era muito reduzido e a reforma não era um direito universal (e é isso mesmo que o número de 250 mil pensionistas apresentado por Medina Carreira quer dizer, e nada mais do que isso).
Em segundo lugar, é preciso deixar claro que o
Estado não paga as pensões dos reformados e incapacitados. Quem
paga são os trabalhadores (os actuais e os ex-trabalhadores), que
quotizam uma parte das suas remunerações para os fundos de pensões.
São os fundos de pensões que pagam as reformas; e estes fundos não
fazem parte do Estado – pertencem aos sistemas de solidariedade dos
trabalhadores – e sempre foram suficientes, gerando mesmo um largo saldo positivo que o ex-ministro Vítor Gaspar não se fez rogado em aplicar fora da esfera de interesses dos trabalhadores.
06/12/13
O espartilho aristotélico
(Nota: este artigo é um esboço de ideias a
desenvolver.)
Vai para 2400 anos que o pensamento, em especial o
erudito, é espartilhado pela lógica aristotélica. Um desastre. Nada que o
próprio Aristóteles não tenha previsto, como demonstra no Paradoxo
da Batalha Naval, onde coloca de forma muito precoce a questão do
livre arbítrio, ou, para usar uma terminologia mais actual e ligada
às lutas sociais, a capacidade de alterar materialmente a realidade.
Entretanto, sucessivas gerações aceitaram as limitações impostas
por aquilo que passaria a ser designado lógica aristotélica e que,
desgraçadamente, não nos permite ver a realidade inteira – apenas
alguns casos particulares dessa realidade – e portanto nos tolhe,
quando chega o momento de transformar essa mesma realidade.
26/11/13
Habilitações necessárias para ministro
Saindo da toca uns quantos salvadores do país e da democracia, logo se puseram num berreiro contra a falta de democracia, o desconchavo das contas públicas, o aperto que o povo sofre e outras maleitas resultantes da governança. Sendo que por acaso foram eles ou padrinhos, ou mandantes, ou executantes do golpe militar do 25 de Novembro de 1975, que derrotou as experiências de democracia directa e instituiu o Estado de direito e a democracia representada, da qual continuamos a padecer ainda agora - e independentemente de alguns dos seus berros terem razão de ser -, creio que é muito boa ocasião para citar Eça de Queirós. Eu sei que já vamos na milésima citação deste mesmo texto, mas ainda assim não deixa de vir a propósito.
Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente, possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder ... O poder não sai duns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião e os dizeres de todos os outros que lá [não] estão, os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do país.Os outros, os que não estão no poder, são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais, os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do país!Mas, coisa notável! – os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do país, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais, e os interesses do país!
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