Desde o topo das hierarquias políticas, partidárias e económicas até às bases militantes, grande parte dos agentes políticos portugueses sofre um desarranjo mental profundo: um desdobramento triplo, ou mesmo quádruplo, de personalidade. Chamemos a esta anomalia, para facilitar, «esquizofrenia política».
«Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa: salvar a humanidade.» - Almada Negreiros
30/08/14
14/08/14
Notícias do futuro
Uma acesa polémica está a correr mundo, a propósito da divulgação de uma colecção de documentários, filmes e outros instrumentos didácticos sobre a vida dos humanos nos remotos séculos XIX-XXI. Embora estes filmes sejam por regra antecedidos de cautelosos avisos às sensibilidades mais frágeis, a polémica subsiste: deve-se, ou não, facultá-los a toda a gente, e até às crianças, segundo o princípio do livre e universal acesso à informação e do combate ao paternalismo bacoco? Deverá a sensibilidade infantil, necessariamente menos blindada que a do adulto, ser poupada?
16/07/14
4 economistas à espera de 2 milagres
Duma maneira geral e com raras
excepções, os estudos e intervenções dos economistas tendem a ser
puros actos de fé. A força mística do economicismo no século XXI
atinge extremos que provavelmente já não eram vistos desde épocas
anteriores ao Iluminismo.
Como é típico de qualquer fé de
carácter primitivo, os sacerdotes da religião economicista sofrem
uma compulsão futurológica. Escrevem centenas de páginas
analisando os dados da realidade – uma realidade que é
tratada pelo áugure não com o carinho que merece toda a coisa
humana actual, mas sim com o desprendimento de quem analisa as borras
do chá ou as entranhas do frango –, para por fim chegarem a
um vaticínio que em regra terá tanto de aleatório como de
peremptório.
Na semana passada foi dado ao público
mais um destes augúrios: o estudo «Um Programa Sustentável para aReestruturação da Dívida Portuguesa», da autoria de Ricardo
Cabral, Francisco Louçã, Eugénia Pires e Pedro Nuno Santos. Os
autores procuram fornecer um plano tecnicamente muito detalhado,
carregado de vaticínios, para fazer a reestruturação da dívida
(pública e privada), para fazer o que apelidam «saneamento da
banca» e para promover uma alteração da estrutura económica
portuguesa. O pormenor técnico desses planos ultrapassa largamente a
minha capacidade crítica e soa como um autêntico programa de
governação. Mas uma coisa é evidente, mesmo para um não iniciado
em economia: a viabilidade do plano depende inteiramente de duas
coisas: 1) a vontade política dos poderes públicos (presentes e
futuros) para alterarem radicalmente a actual estrutura económica
portuguesa, contra a vontade férrea dos grandes investidores
privados, esses mesmos que delinearam e impuseram a actual estrutura
económica do país; 2) a vontade dos bancos, depois de «saneados»,
de se portarem bem, deixarem de cometer os ilícitos, crimes e
esquemas que provocaram as sucessivas crises financeiras e de
«mercado» nos últimos anos, desistirem de apostar todo o dinheiro
que lhes vem parar às mãos no casino da bolsa, na dívida pública
e nos mercados de futuros, e em vez disso passarem a investir nos
sectores produtivos da economia.
Estes dois pressupostos, que
sustentam o estudo na sua totalidade, pedem dois milagres divinos a
que nenhum não-crente no seu perfeito juízo pode dar crédito. Por
mais belo que o plano possa parecer, o certo é que depende
inteiramente da intervenção divina, sem a qual fica reduzido a um
amontoado de tecnicismos inúteis, vazios de sentido, desligados da
realidade.
02/07/14
O degrau zero da militância política
Há um conjunto de regras indispensáveis à organização da militância política de base que se mantêm imutáveis ao longo dos tempos. Podem as suas formas de aplicação variar em função do meio cultural ou da época, mas na essência elas são, digamos assim, uma constante do universo, como a força da gravidade ou a velocidade da luz.
fonte: «Acervo Arquivístico da União Operária»,
25/05/14
24/05/14
A sede de memória e o Aqueduto das Águas Livres
Memórias colectivas há-as muitas e de muitos
géneros. Da que vamos aqui falar, é da dos explorados e oprimidos.
A memória colectiva é a alma mater
da acção eficaz.
Sem memória colectiva não existe resistência. Pode haver fúria
momentânea, actos de raiva
ou qualquer outra expressão
emocional da frustração e da dor, mas não existe revolta (no
sentido camusiano) nem resistência. A memória colectiva não se
confunde com a memória individual nem pode ser substituída por
esta; tem uma vida própria, um corpo próprio, métodos específicos
de construção e conservação. O corpo da memória colectiva são
os movimentos sociais: os sindicatos, as associações de bairro, as
comissões de trabalhadores, as bibliotecas, tertúlias e escolas
populares, etc. Mortos estes corpos, morre a memória.
Dito de outro
modo: não existe memória
colectiva sem organização. A memória desorganizada é uma falsa
memória; é um conjunto caótico de dados fortuitos, que remetem
para manifestações meramente
emocionais, quando
não para a inanição, sem
conseguirem
gerar resistência e revolta. A
evidente incapacidade das populações, em Portugal, para fazerem
frente aos
abusos
de poder de que estão a ser vítimas radica precisamente aí: na
morte clínica da organização
autónoma e de classe – logo, no estertor da memória
colectiva.
24/04/14
25 de Abril lava tudo mais branco
Na euforia da celebração do 25 de Abril, todos
os «militares de Abril» são metidos no mesmo saco. Todos são
tratados por igual. Esta igualdade de tratamento esconde umas quantas
diferenças essenciais.
Nem todos os «militares do 25 de Abril»
estiveram sempre do mesmo lado da barricada; nem todos têm o mesmo
tipo de responsabilidades na evolução dos acontecimentos. Metê-los
a todos no mesmo saco por atacado é o tipo de lixiviação da
história que nos trouxe ao triste ponto de confusão mental onde
hoje nos encontramos.
Durante o PREC, em 1974-1975, uma parte das forças
armadas foi-se colocando, pouco a pouco, ao serviço das populações
– tendo por isso de virar costas ao patrão-Estado, visto que este
e aquelas se encontravam em oposição radical –, rompendo assim
com a razão de ser última do código militar.
No 25 de Novembro de 1975, um conjunto de oficiais
resolveu repor a «ordem» – isto é, repor as forças armadas, na
sua totalidade, ao serviço do Estado (de um certo tipo de Estado,
precisamente aquele que hoje conhecemos e padecemos). Aos oficiais,
sargentos e praças que se tinham posto ao serviço das populações
durante ano e meio, foi dada ordem de rendição e prisão. Esta
ordem veio de oficiais que, embora também eles tenham participado no
derrube da ditadura, não estavam dispostos a mudar de patrão. Esses
oficiais, mantendo-se fiéis a um certo tipo de Estado, mantiveram o
useiro desprezo pela população civil, para a qual olham (para todos
os efeitos práticos) como uma espécie de gentios que é preciso
manter na ordem.
Dadas as regras de comportamento e honra vigentes
dentro das forças armadas, os vencedores do 25 de Novembro trataram
os militares vencidos com cortesia e honra (pelo menos exteriormente)
e por isso todos podem sentar-se hoje à mesma mesa de comemorações,
todos podem frequentar a mesma associação, trocar opiniões e
livros entre si, pagar rodadas uns aos outros. Quanto à população
civil, como sempre, passou-se-lhe um atestado de menoridade mental e
foi metida na «ordem» – os caminhos do poder popular nascentes em
1975 foram atalhados pela força das armas e as opções que cada
«militar de Abril» tomou nesse instante (pelas populações ou pela
«ordem») não podem ser esquecidas.
O que esteve em causa no 25 de Novembro não foram
30 ou 40 oficiais e respectiva tropa; foi o destino de 10 milhões de
portugueses e de umas quantas dezenas de milhões de descendentes.
Que os militares «esqueçam» este pequeno pormenor, que a todo o
custo mantenham a distinção entre população militar e população
civil, não espanta, faz parte. Que nós outros façamos o mesmo,
isso não só espanta, como é até sinal de alguma indigência
mental.
Pedem-nos hoje que branqueemos o pacote inteiro
dos «militares de Abril»; que achemos muita graça a alguns dos
heróis do 25 de Novembro que agora se armam em pregadores contra o
regime que eles próprios colocaram no poder. Não podemos, sem
incorrer em cinismo, alinhar num tal branqueamento. Compreende-se que
os Vasco Lourenço deste mundo queiram enaltecer o seu próprio papel
nos acontecimentos; que lancem bravatas inconsequentes, gritando
«agarrem-me, senão vou-me a eles» (eles = os membros dos últimos
governos); que façam de conta que estão a defender a honra de toda
a caserna e os três vinténs de uma dama que já ninguém sabe quem
foi. Nós, entretanto, não podemos confundir os que em 1974-1975 se
colocaram ao serviço das populações, com os que se colocaram ao
serviço dos poderes económicos e políticos. Não podemos esquecer
nem branquear essas diferenças, sendo certo que os actuais poderes
económicos e políticos não diferem um milímetro dos que em Novembro de 1975
retomaram as rédeas do país à custa de um golpe militar, ainda que as suas políticas imediatas
pareçam formalmente diversas.
02/04/14
Com tais rosários e gamanços, os pensionistas estão bem tramados!
Existem em Portugal cerca de 3,6 milhões de
pensionistas. É um exército.
A dimensão deste exército é suficiente para
provocar a queda de um governo, uma mudança de hábitos na
participação cívica, ou mesmo uma revolução.
Quando se formou o movimento de reformados APRE, o
meu coração encheu-se de esperança. É claro que eu não estava à
espera que o exército dos reformados fizesse uma revolução, nem
coisa que se pareça.
E no entanto, sim, esperava que dali viesse uma
revolução – não institucional ou regimental, mas antes nos
hábitos de participação e acção cívica. Esperava que a
experiência encanecida nos desse a todos uma respeitável lição
de organização e acção cívica directa; que o colectivo de
cidadãos reunidos na APRE fosse capaz de pôr em marcha uma
autêntica locomotiva, que atafulhasse as repartições,
direcções-gerais e ministérios de reclamações, protestos, filas
de espera, manifestações, que moesse o juízo aos governantes de
todas as formas possíveis e imagináveis (um trabalhador reformado
tem muito tempo para pensar e imaginar artimanhas), e que essa
locomotiva, mais tarde ou mais cedo, graças ao seu bom exemplo e aos
seus bons resultados, arrastasse consigo a demais população para a
terra da democracia participada, e não apenas delegada.
As tarefas centrais da APRE eram simples:
- mostrar os dados e os factos tal qual eles são; desautorizar as mentiras dos governantes e a charlatanice dos falsos «técnicos» que pretendem encenar a insustentabilidade da segurança social;
- criar uma campanha mediática permanente, teimosa, enervante; não dar tréguas à opinião pública nem às campanhas de contra-informação do Governo;
- realizar acções colectivas visando travar o desmantelamento da Segurança Social e afirmar a vontade de garantir a solidariedade com os mais desprotegidos.
O que a APRE não precisava nem devia fazer, era meter-se em cavalgadas de política institucional, andar na marmelada com os partidos no poder, transmitir recados dos poderes públicos. Quanto menos o fizesse, mais razão teria e mais unidade produziria entre vastas camadas da população, algumas delas sujeitas a um autêntico genocídio.
É por isso uma enorme desilusão ver o descaminho
impresso à APRE pela sua figura de proa, Maria do Rosário Gama, que
mais uma vez (é já a terceira, se não estou em erro) vem a público
zurrar coisas que uma representante da APRE devia recatar-se de
dizer, para não comprometer os objectivos e interesses da associação
cívica que representa. Vemo-la ao longo desta semana a fazer uma
sistemática campanha mediática pelo voto nos candidatos ao
parlamento europeu – segundo as suas palavras, o que é
preciso é votar; vota!, nem que seja naqueles mesmos que estão
agora mesmo a cortar tua pensão –, chegando ao ponto de
afirmar que «é criminosa a campanha em curso nas redes sociais
apelando à abstenção ou ao voto em branco ou nulo» [cito de
memória e desconhecendo as campanhas em questão]. Se alguma coisa de
criminoso houvesse a apontar, seria a campanha de Rosário Gama pelo
voto nos partidos instalados no poder (com indisfarçável recado de
voto no PS, diga-se de passagem), esvaziando a acção cívica
directa da APRE e dividindo o campo dos pensionistas em dois. Não é
preciso ser bruxo para adivinhar o futuro da APRE a partir de agora:
uma aglomeração simbólica de cidadãos, pronta a ser usada como
força de pressão ao serviço de interesses partidários duvidosos;
uma tropa arregimentada para as urnas e completamente arredada da
acção cívica directa.
Aí está como se bloqueia primeiro e mata depois
um magnífico sonho.
Os factos
Existem cerca de 3,6 milhões de pensionistas
(números de 2012). Destes, quase 3 milhões recebem pensões de
velhice, invalidez, sobrevivência ou reforma antecipada (ou seja, uma miséria na maior parte dos casos); os
restantes 0,6 milhões recebem pensões da CGA (Caixa Geral de
Aposentações).
A título de exemplo, olhemos para a CGA, donde
saíam em 2013 as pensões de cerca de 471 mil reformados e
aposentados. Destes, 50% recebiam pensões inferiores a 1000 €.
Fazendo as contas por alto e por excesso, estes pensionistas, contra
os quais tanto berra Medina Carreira, recebem o equivalente a 0,36%
do PIB. Isto significa que para sustentar essas pensões eu tenho de
desembolsar, na pior das hipóteses, 2 € por semana – isto
na hipótese de toda a gente estar a trabalhar em Portugal; mas como o desemprego está muito alto e
nem todos os empregados arranjam trabalho a tempo completo, a factura
sobe para 3 € por semana (na pior das hipóteses). Olhem para a minha cara de preocupado (peço
desculpa se não for capaz de fazer umas caretas à Medina Carreira).
Entretanto, estes números escondem um facto
dramático: 21% dos pensionistas da CGA recebem menos de 500 €
por mês, ou seja, encontram-se na sua maioria abaixo do limiar de
pobreza.
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