Durante semanas a fio António Costa atirou à cara de António Seguro esta verdade insofismável: ele, Costa, ao contrário do seu opositor, Seguro, tem anos de provas dadas no exercício do poder, com vasta obra patente na cidade de Lisboa. Esta chamada de atenção, além de justa, habilita os portugueses a saberem com o que hão-de contar, logo que façam o que muito provavelmente farão: colocar António Costa no topo da hierarquia do poder central, administrativo e executivo do país.
A probabilidade de António Costa chegar ao topo é tão confortável e as provas dadas pelo autarca são tão inequívocas, que podemos com moderado risco imaginar o nosso futuro nos seus mais ínfimos pormenores. Para isso não são necessárias premonições nem bolas de cristal – basta um simples exercício de transposição da sua obra em Lisboa para o país inteiro, e zás, eis-nos perante uma imagem bem definida do porvir.
«Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa: salvar a humanidade.» - Almada Negreiros
02/11/14
24/09/14
30/08/14
EPL – a Esquizofrenia Política Lusa
Desde o topo das hierarquias políticas, partidárias e económicas até às bases militantes, grande parte dos agentes políticos portugueses sofre um desarranjo mental profundo: um desdobramento triplo, ou mesmo quádruplo, de personalidade. Chamemos a esta anomalia, para facilitar, «esquizofrenia política».
14/08/14
Notícias do futuro
Uma acesa polémica está a correr mundo, a propósito da divulgação de uma colecção de documentários, filmes e outros instrumentos didácticos sobre a vida dos humanos nos remotos séculos XIX-XXI. Embora estes filmes sejam por regra antecedidos de cautelosos avisos às sensibilidades mais frágeis, a polémica subsiste: deve-se, ou não, facultá-los a toda a gente, e até às crianças, segundo o princípio do livre e universal acesso à informação e do combate ao paternalismo bacoco? Deverá a sensibilidade infantil, necessariamente menos blindada que a do adulto, ser poupada?
16/07/14
4 economistas à espera de 2 milagres
Duma maneira geral e com raras
excepções, os estudos e intervenções dos economistas tendem a ser
puros actos de fé. A força mística do economicismo no século XXI
atinge extremos que provavelmente já não eram vistos desde épocas
anteriores ao Iluminismo.
Como é típico de qualquer fé de
carácter primitivo, os sacerdotes da religião economicista sofrem
uma compulsão futurológica. Escrevem centenas de páginas
analisando os dados da realidade – uma realidade que é
tratada pelo áugure não com o carinho que merece toda a coisa
humana actual, mas sim com o desprendimento de quem analisa as borras
do chá ou as entranhas do frango –, para por fim chegarem a
um vaticínio que em regra terá tanto de aleatório como de
peremptório.
Na semana passada foi dado ao público
mais um destes augúrios: o estudo «Um Programa Sustentável para aReestruturação da Dívida Portuguesa», da autoria de Ricardo
Cabral, Francisco Louçã, Eugénia Pires e Pedro Nuno Santos. Os
autores procuram fornecer um plano tecnicamente muito detalhado,
carregado de vaticínios, para fazer a reestruturação da dívida
(pública e privada), para fazer o que apelidam «saneamento da
banca» e para promover uma alteração da estrutura económica
portuguesa. O pormenor técnico desses planos ultrapassa largamente a
minha capacidade crítica e soa como um autêntico programa de
governação. Mas uma coisa é evidente, mesmo para um não iniciado
em economia: a viabilidade do plano depende inteiramente de duas
coisas: 1) a vontade política dos poderes públicos (presentes e
futuros) para alterarem radicalmente a actual estrutura económica
portuguesa, contra a vontade férrea dos grandes investidores
privados, esses mesmos que delinearam e impuseram a actual estrutura
económica do país; 2) a vontade dos bancos, depois de «saneados»,
de se portarem bem, deixarem de cometer os ilícitos, crimes e
esquemas que provocaram as sucessivas crises financeiras e de
«mercado» nos últimos anos, desistirem de apostar todo o dinheiro
que lhes vem parar às mãos no casino da bolsa, na dívida pública
e nos mercados de futuros, e em vez disso passarem a investir nos
sectores produtivos da economia.
Estes dois pressupostos, que
sustentam o estudo na sua totalidade, pedem dois milagres divinos a
que nenhum não-crente no seu perfeito juízo pode dar crédito. Por
mais belo que o plano possa parecer, o certo é que depende
inteiramente da intervenção divina, sem a qual fica reduzido a um
amontoado de tecnicismos inúteis, vazios de sentido, desligados da
realidade.
02/07/14
O degrau zero da militância política
Há um conjunto de regras indispensáveis à organização da militância política de base que se mantêm imutáveis ao longo dos tempos. Podem as suas formas de aplicação variar em função do meio cultural ou da época, mas na essência elas são, digamos assim, uma constante do universo, como a força da gravidade ou a velocidade da luz.
fonte: «Acervo Arquivístico da União Operária»,
25/05/14
24/05/14
A sede de memória e o Aqueduto das Águas Livres
Memórias colectivas há-as muitas e de muitos
géneros. Da que vamos aqui falar, é da dos explorados e oprimidos.
A memória colectiva é a alma mater
da acção eficaz.
Sem memória colectiva não existe resistência. Pode haver fúria
momentânea, actos de raiva
ou qualquer outra expressão
emocional da frustração e da dor, mas não existe revolta (no
sentido camusiano) nem resistência. A memória colectiva não se
confunde com a memória individual nem pode ser substituída por
esta; tem uma vida própria, um corpo próprio, métodos específicos
de construção e conservação. O corpo da memória colectiva são
os movimentos sociais: os sindicatos, as associações de bairro, as
comissões de trabalhadores, as bibliotecas, tertúlias e escolas
populares, etc. Mortos estes corpos, morre a memória.
Dito de outro
modo: não existe memória
colectiva sem organização. A memória desorganizada é uma falsa
memória; é um conjunto caótico de dados fortuitos, que remetem
para manifestações meramente
emocionais, quando
não para a inanição, sem
conseguirem
gerar resistência e revolta. A
evidente incapacidade das populações, em Portugal, para fazerem
frente aos
abusos
de poder de que estão a ser vítimas radica precisamente aí: na
morte clínica da organização
autónoma e de classe – logo, no estertor da memória
colectiva.
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