26/12/14

Quanto custam os muares do Jornal i?

Reunião de responsáveis editoriais do Jornal i,
poucos segundos depois de tomarem uma decisão histórica.
Repare-se no ar sereno, na plácida felicidade do dever cumprido

Os muares do Jornal i, depois de pensarem maduramente, tomaram esta decisão formidável: o assunto mais importante do dia – aquele que a todo o custo, doa a quem doer, deveria ser chamado à capa, tornar-se o rosto do jornal nesta gloriosa sexta-feira pós-natalícia de 2014, aquele que faria toda a diferença do ponto de vista informativo – é o custo de manutenção das cavalgaduras da GNR.
Segundo o Jornal i, os animais custariam 1,2 milhões de euros anuais.
Confesso que desconheço os restantes encantos do artigo, porque nem me passou pela cabeça gastar dinheiro para os ler. Aliás, não percebo nada das artes e custos de tratar e manter cavalos, por isso todos os argumentos que possam pôr-me à frente, por mais estúpidos e desonestos que sejam, papo-os eu a todos por bons – mais vale portanto não ler coisas vindas de um jornal a quem eu não confiaria nem um cão tinhoso.
De resto, para quê ler o artigo, se a declaração mais importante, a súmula do assunto, fica perfeitamente clara no acto da sua chamada à capa? Este acto constitui em si mesmo um autêntico manifesto. Os muares do Jornal i podiam ter destacado na primeira página os 125 milhões do orçamento para a habitação (estou a citar números de 2013; em 2002 eram 1000 milhões), ou seja, a decisão governamental de encerrar esta função do Estado e entregar os cidadãos à bicharada debaixo duma ponte, numa época em que as câmaras da Amadora, de Lisboa e de várias outras urbes arrasam as casas dos bairros pobres com buldozeres e polícia de intervenção carregada de armas de fogo, qual Iraque, para gáudio das imobiliárias e dos bancos.
Podiam ter perguntado quanto custam as agulhas, os pensos e a gaze em falta nos hospitais e centros de saúde.
Podiam ter perguntado por que razão o orçamento anual da função de Defesa e Soberania, nos últimos 12 anos, ronda os 2000 milhões, por vezes 3000 milhões de euros, se não estamos em guerra (e já se percebeu, graças ao Jornal i, que a culpa não é das cavalgaduras, que, coitadas, só papam 1,2 milhões). Podiam ter perguntado por que razão o orçamento da Economia duplicou no mesmo período, se não houve investimento público (antes pelo contrário), não foram criados postos de trabalho (antes pelo contrário) e a economia (pelo menos a dos trabalhadores) não pára de regredir.
Podiam ter perguntado quanto vai custar à população portuguesa a privatização da TAP e de outros transportes públicos.
Podiam ter perguntado que razão, que legitimidade têm os bancos para cobrar 2,1 e 7,6% de juros pelos empréstimos que fazem aos Estados da periferia europeia, quando esse dinheiro lhes é emprestado actualmente a eles, bancos, pelo Banco Central Europeu, com uma taxa de juro de 0,05%.
Nada disso – o que lhes pareceu definitivamente importante foram as cavalgaduras da GNR. Digamos que, como solidariedade entre irmãos, chega a ser comovente.
Ficamos sem saber quanto custam os muares da administração do Jornal i à empresa detentora do jornal. Paciência, talvez na próxima capa sejamos elucidados.

16/12/14

O perfume do voto


Sobre a assembleia cidadã promovida pela iniciativa Juntos Podemos, realizada em Lisboa a 13-14 de Dezembro de 2014, gostaria de deixar algumas notas parcelares.

1. Apenas estive presente numa das primeiras reuniões de lançamento da iniciativa. Desconheço assim uma grande parte do seu modus operandi. Estive no entanto presente numa das oficinas auto-organizadas (dívida) e em dois dos plenários da assembleia cidadã – nomeadamente no plenário final, onde se devia decidir: a) o carácter formal daquele colectivo; b) formas organizativas de acção (na base social) e debate.
Balanço: a participação de pessoas tão diversas, com percursos políticos de esquerda tão variados, pareceu-me só por si interessante e esperançosa.

2. Entendo o encanto que toda a gente parece sentir pelo Podemos espanhol. Compreendo (mas não acompanho) a atracção fatal exercida pelo tesão eleitoral do Podemos junto de sectores militantes portugueses maso-passivos.
Entendo que o fenómeno espanhol deve ser seguido com atenção, tirando-se dele as devidas lições. Pequeno problema: não basta tirar as lições «boas»; é preciso tirar também as lições «más». Quem ouviu os mesmos representantes do Podemos há 6 meses em Lisboa e os ouve agora, não pode deixar de ficar perplexo: a vertigem eleitoral parece estar a dar-lhes a volta ao miolo.

3. Tanto quanto me pude aperceber graças a conversas de bastidores indiscretamente captadas, as cautelosas propostas preparadas para o plenário final pelo núcleo organizador (visando manter a unidade na acção e na reflexão, julgo eu) foram contrariadas de surpresa, no plenário final, por um grupo que – usando da prerrogativa de, numa assembleia democrática, qualquer um poder apresentar propostas – injectou a proposta que cautelosamente tinha sido arredada: activar os passos necessários para avançar a toda a força para a formação de um partido com fins eleitorais.

4. Não pude fazer um inquérito alargado, sem o qual julgo não ser possível ter uma ideia clara dos acontecimentos e das potencialidades existentes; um inquérito breve a meia dúzia de pessoas e a minha leitura das intervenções e atitudes nos plenários leva-me a crer o seguinte: a esmagadora maioria das pessoas ali presentes não consegue distinguir entre um partido, uma frente unitária e um movimento.

5. Vejamos qual a pontuação necessária para criar um partido. Ponhamos em confronto a dualidade {cumprem-se as condições necessárias}/{não se cumprem as condições necessárias}; partamos da pontuação 0-0.

18/11/14

As barqueiras e o Letes


Se bem entendi ao início as intenções metafóricas do programa «Barca do Inferno», difundido pelo canal televisivo RTP-Informação, propunham-se os autores, à maneira vicentina, construir uma barca onde temas e personagens políticos seriam indagados, medidos, sopesados e avaliados para se saber se caberiam na barca que conduz ao paraíso ou na que aporta ao inferno.



Na versão televisiva, duas barqueiras governam a barca do inferno, outras duas (durante as primeiras edições do programa, apenas uma) governam a do paraíso. A grande distância que vai de Gil Vicente à RTP, porém, torna instáveis estas duas barcas, pois enquanto na versão vicentina ambas se regem pelos mesmos fins (inquirir e sopesar os passageiros, usando para isso as medidas e alqueires do povo), na versão da RTP tudo é pervertido por um enervante vício contemporâneo: o contraditório simultâneo e instantâneo, a torto e a direito. As duas barcas televisivas não colaboram; combatem-se como navios inimigos, num cenário de guerra onde os passageiros, que deveriam ser o foco principal, se tornam mero adereço, e onde não existe tempo para a reflexão. O foco do espectáculo é assim deslocado para as próprias barqueiras, que aceitam o estado de guerra e pelejam entre si com enorme clangor, pondo-se a salvo os presuntivos passageiros.



Está portanto quebrada a metáfora, como se pode comprovar nesta passagem do texto vicentino original [acrescento facilitação para quem não está habituado à linguagem da época]:

02/11/14

Retrato da futura Era Antonina

Durante semanas a fio António Costa atirou à cara de António Seguro esta verdade insofismável: ele, Costa, ao contrário do seu opositor, Seguro, tem anos de provas dadas no exercício do poder, com vasta obra patente na cidade de Lisboa. Esta chamada de atenção, além de justa, habilita os portugueses a saberem com o que hão-de contar, logo que façam o que muito provavelmente farão: colocar António Costa no topo da hierarquia do poder central, administrativo e executivo do país.

A probabilidade de António Costa chegar ao topo é tão confortável e as provas dadas pelo autarca são tão inequívocas, que podemos com moderado risco imaginar o nosso futuro nos seus mais ínfimos pormenores. Para isso não são necessárias premonições nem bolas de cristal – basta um simples exercício de transposição da sua obra em Lisboa para o país inteiro, e zás, eis-nos perante uma imagem bem definida do porvir.

30/08/14

EPL – a Esquizofrenia Política Lusa


Desde o topo das hierarquias políticas, partidárias e económicas até às bases militantes, grande parte dos agentes políticos portugueses sofre um desarranjo mental profundo: um desdobramento triplo, ou mesmo quádruplo, de personalidade. Chamemos a esta anomalia, para facilitar, «esquizofrenia política».

14/08/14

Notícias do futuro



Uma acesa polémica está a correr mundo, a propósito da divulgação de uma colecção de documentários, filmes e outros instrumentos didácticos sobre a vida dos humanos nos remotos séculos XIX-XXI. Embora estes filmes sejam por regra antecedidos de cautelosos avisos às sensibilidades mais frágeis, a polémica subsiste: deve-se, ou não, facultá-los a toda a gente, e até às crianças, segundo o princípio do livre e universal acesso à informação e do combate ao paternalismo bacoco? Deverá a sensibilidade infantil, necessariamente menos blindada que a do adulto, ser poupada?

16/07/14

4 economistas à espera de 2 milagres

Duma maneira geral e com raras excepções, os estudos e intervenções dos economistas tendem a ser puros actos de fé. A força mística do economicismo no século XXI atinge extremos que provavelmente já não eram vistos desde épocas anteriores ao Iluminismo.

Como é típico de qualquer fé de carácter primitivo, os sacerdotes da religião economicista sofrem uma compulsão futurológica. Escrevem centenas de páginas analisando os dados da realidade – uma realidade que é tratada pelo áugure não com o carinho que merece toda a coisa humana actual, mas sim com o desprendimento de quem analisa as borras do chá ou as entranhas do frango –, para por fim chegarem a um vaticínio que em regra terá tanto de aleatório como de peremptório.

Na semana passada foi dado ao público mais um destes augúrios: o estudo «Um Programa Sustentável para aReestruturação da Dívida Portuguesa», da autoria de Ricardo Cabral, Francisco Louçã, Eugénia Pires e Pedro Nuno Santos. Os autores procuram fornecer um plano tecnicamente muito detalhado, carregado de vaticínios, para fazer a reestruturação da dívida (pública e privada), para fazer o que apelidam «saneamento da banca» e para promover uma alteração da estrutura económica portuguesa. O pormenor técnico desses planos ultrapassa largamente a minha capacidade crítica e soa como um autêntico programa de governação. Mas uma coisa é evidente, mesmo para um não iniciado em economia: a viabilidade do plano depende inteiramente de duas coisas: 1) a vontade política dos poderes públicos (presentes e futuros) para alterarem radicalmente a actual estrutura económica portuguesa, contra a vontade férrea dos grandes investidores privados, esses mesmos que delinearam e impuseram a actual estrutura económica do país; 2) a vontade dos bancos, depois de «saneados», de se portarem bem, deixarem de cometer os ilícitos, crimes e esquemas que provocaram as sucessivas crises financeiras e de «mercado» nos últimos anos, desistirem de apostar todo o dinheiro que lhes vem parar às mãos no casino da bolsa, na dívida pública e nos mercados de futuros, e em vez disso passarem a investir nos sectores produtivos da economia.

Estes dois pressupostos, que sustentam o estudo na sua totalidade, pedem dois milagres divinos a que nenhum não-crente no seu perfeito juízo pode dar crédito. Por mais belo que o plano possa parecer, o certo é que depende inteiramente da intervenção divina, sem a qual fica reduzido a um amontoado de tecnicismos inúteis, vazios de sentido, desligados da realidade.