Ainda agora começou a campanha presidencial e já se percebe que
estreou o derradeiro episódio do avacalhamento democrático. Em vez
duma visão política das coisas, os debates entre candidatos à
Presidência têm-nos brindado com conversa de café, feita de
minudências e faits-divers
(uma espécie de
marcelo-rebelização de todos os candidatos);
o posicionamento político e ideológico parece ser tabu,
atitude escabrosa que os candidatos, à direita e à esquerda, evitam
com cautela.
Abro uma excepção honrosa para Paulo Morais; ainda que eu
não alinhe na sua defesa social-democrata do capitalismo, parece ser
o único que nem tem vergonha de defender aquilo que é, que pensa e
que projecta, nem abdica duma postura política e de Estado. De resto,
até os candidatos directamente escolhidos por decisão partidária
parecem ter sido seleccionados entre o refugo que lá havia, apenas
com o fito de ocupar o tempo de antena disponível.
«Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa: salvar a humanidade.» - Almada Negreiros
03/01/16
16/11/15
As guerras são vossas, mas os mortos são nossos
Logo após os atentados em Paris, François Hollande declara solenemente: «isto é uma declaração de guerra contra a França». Seria hilariante, se os acontecimentos não fossem dramáticos. O Estado francês, um dos que mais guerras provocou em todo o mundo nos últimos 100 anos, da Indochina ao Próximo Oriente, passando pelo Magrebe e pela África Negra, que mais armas vendeu aos ditadores, às guerrilhas, aos golpistas contra regimes soberanos, que mais pressão fez para reduzir ao silêncio o povo grego, obrigando-o a contrair empréstimos para salvar os banqueiros franceses e comprar armas francesas (juntamente com as alemãs, as norte-americanas e as russas), vem choramingar perante as câmaras: as forças contra quem ele, Estado francês, lançou a guerra provocaram 140 mortos em França (número igual ao da média diária de vítimas civis na Síria). Parece uma daquelas piadas absurdas dos Monty Pyton. Infelizmente, não é; há pessoas reais a morrerem de ambos os lados do Mediterrâneo.
François Hollande dirigiu-se ao parlamento para pedir uma alteração da lei; quer prolongar mais 3 meses o estado de emergência que tolhe a população francesa (de facto nem toda, como veremos adiante). Foram fechadas escolas, museus, bibliotecas, mercados de rua, piscinas públicas, enfim, toda a espécie de equipamentos, actividades e comércios colectivos. A cimeira do Plano B, destinada a discutir soluções alternativas para a Europa, teve de ser desmarcada. A França pára. Mas não, nem toda: os bancos, os supermercados e os centros comerciais, todos eles locais de grande afluência, permanecem abertos. Os gigantes económicos foram postos a salvo do estado de emergência – parece quase uma assinatura, não é?
07/11/15
Governo de esquerda – aguenta-se?
Seria desonesto não reconhecer que aquilo que do ponto de vista político, a médio e longo prazo, pode não passar de migalhas envenenadas, do ponto de vista vivencial para centenas de milhares de portugueses reduzidos à miséria pode ser um banquete.
A alternativa, que é um governo de direita do PSD/CDS-PP, já deixou claro, através de acções concretas antes mesmo de se tornar um governo legítimo, que pretende prosseguir e aprofundar a política de austeridade e miséria.
Entretanto, um dos argumentos apresentados pela direita contra um possível «governo de esquerda» é o da sustentabilidade. Mas esta ideia é invocada pela direita num sentido estritamente económico e financeiro, repetindo até à exaustão o mito falta de recursos suficientes para sustentar o Estado social. Este mito já foi sobejamente rebatido, portanto não vou perder tempo com ele neste artigo. O que vos proponho é uma reflexão assente numa perspectiva distinta: até que ponto um programa de «governo de esquerda» do PS com apoio parlamentar BE+PC é politicamente sustentável? Não pretendo dar uma resposta final a esta questão; pelo contrário, proponho que alimentemos um debate sério sobre as condições necessárias para nos vermos livres das políticas de austeridade.
08/10/15
O Aníbal chibou-se
Desde há vários dias, começando antes da data das eleições para a Assembleia da República (4-10-2015), o Presidente da República adquiriu uma certa loquacidade, produzindo várias declarações públicas em que se chibou de secretas intenções – suas e dos poderes públicos e privados internacionais.
26/09/15
A insustentável cretinice eleitoral
[Este estudo é patrocinado pelo Observatório para os Actos Eleitorais e Outros Que Tais]
29/08/15
A Voz do Dono (3)
«4 de Abril de 1984. Ontem à noite ao cinema. Só fitas de guerra. Uma muito boa de um navio cheio de refugiados bombardeado algures no Mediterrâneo. Público muito divertido com planos de um homenzarrão grande e gordo a tentar fugir a nado com um helicóptero atrás dele. […] depois via-se um salva-vidas cheio de crianças com o helicóptero a sobrevoá-lo. Havia uma mulher de meia-idade talvez uma judia sentada à proa com um rapazinho dos seus três anos ao colo. […] depois o helicóptero largou uma bomba de 20 quilos mesmo em cima deles clarão enorme e o barco ficou feito em fanicos […] muitos aplausos na bancada do partido mas uma mulher lá em baixo no sector dos proles desatou de repente a armar um barulho e a berrar que nã deviam ter mostrado aquilo com miúdos na sala nã senhor nã está certo com miúdos na sala até que a polícia a pôs na rua não me parece que lhe tenha acontecido alguma coisa ninguém liga ao que dizem os proles [...]» [diário de Winston, in Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, ed. Antígona, 2012, trad. Ana Luísa Faria, p. 12]
No artigo anterior retomei o tema da Voz do Dono, ou a puta da comunicação social comercial, começando por Duplopensar #1: os bairros de lata.
No presente artigo avanço outro exemplo:
Duplopensar #2: os refugiados que demandam refúgio na Europa
A abjecção desta campanha serve múltiplos aspectos políticos, que vão desde as estratégias bélicas e imperialistas, até à mais elementar negação dos direitos humanos, passando pela renegação sub-reptícia dos acordos internacionais assinados. Embora, de todo o rol de factores em jogo na campanha transmitida pela Voz do Dono, os objectivos políticos e ideológicos sejam sem dúvida da maior relevância para o conjunto dos povos europeus, os seus efeitos mais imediatos e impressionantes realizam-se ao nível individual. Impressionam não só pela gravidade das consequências humanitárias para milhares de foragidos, mas também pela descontracção com que jornalistas, editores e directores de informação alinham em atirar aos lobos esses seres humanos desprotegidos, boa parte dos quais crianças de colo.28/08/15
A Voz do Dono (2)



«[...] o Ministério da Riqueza estimara em cento e quarenta e cinco milhões de pares a produção de botas para o trimestre. A produção real estava avaliada em sessenta e dois milhões. Winston, no entanto, ao reescrever a previsão, reduziu este número para cinquenta e sete milhões, de forma a dar substância à habitual afirmação de que as quotas tinham sido ultrapassadas. Fosse como fosse, os sessenta e dois milhões não se aproximavam mais da verdade do que os cinquenta e sete ou do que os cento e quarenta e cinco. Muito provavelmente nem se tinham produzido botas nenhumas. Mais provavelmente ainda, ninguém saberia quantas teriam sido produzidas, nem ninguém queria saber. Sabia-se apenas que todos os trimestres se produziam, no papel, números astronómicos de botas, enquanto uma boa metade da população da Oceânia andava descalça.» [Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, ed. Antígona, 2012, trad. Ana Luísa Faria, p. 44-45]
Retomo hoje o tema da Voz do Dono, ou a puta da comunicação social comercial. O artigo anterior sobre a Voz do Dono (um rascunho que nunca cheguei a apurar) apresentava uma conclusão que hoje se mantém e se reforça: Na fase política actual não é possível manter qualquer resistência eficaz sem um órgão de comunicação social alternativo e independente.
A quantidade de campanhas que a Voz do Dono ecoa na actualidade é demasiado vasta para ser listada aqui. Referirei aqui apenas duas campanhas particularmente abjectas: 1) a imagem distorcida dos bairros de lata e respectivas populações; 2) a questão dos refugiados.
18/08/15
Nem sempre basta boa vontade
O fetichismo da mercadoria
Crítica da edição com prefácio de Anselm Jappe, ed. Antígona, 2015
Com
o título «O Fetichismo da Mercadoria e o Seu Segredo», a
editora Antígona publicou uma colectânea de textos extraídos de O Capital, de
Karl Marx. A edição data de 2015,
com um artigo introdutório de Anselm Jappe; os textos são traduzidos directamente do
alemão por José Miranda Justo.
Infelizmente a
edição parece-me um
desastre, por razões
que explicarei adiante; digo isto
com particular desgosto, por ser
a Antígona uma editora que
muito prezo, exemplo invulgar
de resistência contra ventos e marés.
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