06/02/18

Caquexia, homeostasia e damásia


Quantos me conhecem de muito perto sabem da minha repugnância – vá, digamos, da minha desconfiança – pela filosofia em geral. Esta atitude é tão vincada desde a minha juventude que, ao deparar-me com a disciplina de filosofia na escola, sem a qual não poderia progredir nos estudos, decidi abandoná-los de vez – antes a ignorância que a cadeira de Filosofia, tal foi o meu grito. Esta teima tem um senão: como quase nunca tive pachorra para sofrer até ao fim esses marcos do pensamento ocidental (e bem assim os do oriental), não me encontro em condições de fazer uma crítica sistemática às respectivas obras. Aliás não creio que ela vos faça falta.
  
Em todo o caso sou capaz de vos apontar muito sinteticamente o busílis da questão, do meu ponto de vista: de modo geral as obras filosóficas consistem em má poesia; têm quase tudo da poesia, em quase tudo são poesia, excepto no que diz respeito à qualidade literária ou poética e ao elevado discernimento inerente à boa poesia. Em suma, na sua esmagadora maioria os filósofos consagrados são maus poetas que, por vergonha, se mascararam de mestres da lógica; mas que também nisso não são grande espingarda.

11/01/18

Considerações sobre a inteligência artificial

Está na berra falar de inteligência artificial e até num paraíso do futuro onde as máquinas inteligentes tratariam da nossa vidinha, podendo nós simplesmente repousar à sombra da bananeira e suspender o trabalho esgotante da nossa própria inteligência. Deixo aqui alguns reparos a esse propósito, juntamente com uma homenagem final a Isaac Asimov.
 
Comecemos por umas quantas pérolas de tautologia colhidas na Wikipedia:

02/11/17

Estava a Economia posta em repouso, veio o Joãozinho e papou-a

Para bom entendimento de alguns artigos que ficaram para trás e doutros que virão adiante, apresento alguns esclarecimentos sobre o conceito de economia.

31/10/17

Balanço da 5ª Cimeira por um Plano B para a Europa

Realizou-se em Lisboa, no fim de semana de 21-22/Outubro/2017, o 5º encontro internacional por um Plano B para a Europa. Trata-se duma iniciativa ainda pouco divulgada mas que interessa à generalidade das populações europeias, por isso tentarei explicar do que se trata e fazer um balanço da situação – um balanço parcelar e abreviado, que deve ser entendido como uma impressão subjectiva, por não ter sido discutido em nenhum colectivo.

09/10/17

Dois inimigos juramentados: legalismo e autodeterminação


O referendo independentista catalão tem sido tratado em moldes legalistas e institucionais pela maioria dos comentadores. Ora o cerne da questão não é jurídico, constitucional ou institucional, mas sim histórico e político. Adiante tentarei elucidar o que isto significa.
Vemos jornalistas, comentadores – nomeadamente escritoras de renome –, com assento permanente nos púlpitos televisivos, afirmarem coisas como: se nos pomos agora a permitir que todas as populações com remotas razões históricas reivindiquem a independência, qualquer dia temos os Algarves, a Madeira e os Açores a pedirem a independência. O grau de disparate deste tipo de afirmações é confrangedor.

20/07/17

Fogos, relatórios, inquéritos e teses: Hades cá vir

Em pleno Hades de desolação e cinza, um porto salvo, graças à reflorestação por iniciativa das populações. Foto publicada no Jornal de Leiria, sem autor explícito

Há cerca de meio século (salvo erro) que a população portuguesa do interior e das zonas periféricas é anualmente fustigada por incêndios de proporções dantescas. Passada a fronteira das últimas chuvas de Abril, o país entra no inferno dos fogos florestais. Segue-se uma jornada pelo reino de Hades: desolação, cinza e sofrimento.
Todos os anos (ou quase) os poderes públicos constituem comissões de inquérito, estudo e investigação, com o fim de resolver o problema. Já iremos nesta altura com umas boas 50 comissões de estudo, relatórios e teses. A solução é pois conhecida: abolir o plantio extenso de eucaliptos. Porém, o lobby dos madeireiros e da indústria madeireira tem mais força que 50 relatórios técnicos e académicos. Só a iniciativa autónoma das populações pode pôr fim à calamidade.

02/03/17

A casa … de quem?



Ontem ao fim da noite ligo a televisão e dou de caras com o final dum anúncio a uma futura emissão da TVI. Vislumbro apenas o título, algo do género: «A casa de quem constrói as casas». Fiquei tão entusiasmado com o que supus ser uma rara iniciativa para mostrar ao mundo as condições de habitação do trolha que constrói a casa da educadora de infância, do médico ou do milionário com visto gold, que imediatamente carreguei no botão de recuar na emissão e ver o anúncio de início. Surpresa: a série não pretende dar a conhecer a habitação de quem constrói as casas, mas sim a de quem as projecta (idealiza em abstracto) por encomenda de quem tem poder e capital acumulado – ou seja, a TVI quer mostrar-nos as casas dos arquitectos e espera certamente que nos babemos a vê-las.

Acaso ou não, esta iniciativa da TVI surge numa época em que várias câmaras municipais – com particular destaque para a Câmara da Amadora – tentam branquear o facto brutal de continuarem a despejar e a arrasar as casas de muitas pessoas que constroem, limpam e cuidam … das casas dos outros. «Até há pouco, o consenso [na Assembleia da República e no Governo] era de que não fazia sentido falar em problemas e propostas para a habitação, não era prioridade para ninguém, e por isso o testemunho da relatora das Nações Unidas para a Habitação Adequada foi um murro no estômago» (in http://www.habita.info/, 7/01/2017, por Rita Silva).

12/11/16

Impressões categóricas - versão curta


«O Homem Orquestra», de Georges Méliès, 1900

Muitas pessoas lidam hoje com um volume de correspondência e comunicação pessoal que ultrapassou os limites da capacidade individual. A consequência é, muito possivelmente, um desarranjo das funções mentais superiores, sobre o qual tentarei lançar aqui algumas pistas.