31/03/12

Arménio Carlos, o campeão da direita

Este artigo é apresentado em três línguas para ser dado ao conhecimento da comunidade internacional, em particular aos trabalhadores gregos.


Ao escrever o artigo anterior, eu ainda alimentava uma cândida ilusão: esperava que Arménio Carlos se retractasse das suas infames acusações de vandalismo atiradas aos movimentos autónomos; que fizesse uma autocrítica e apresentasse um pedido de desculpas, depois de bem examinadas todas as provas materiais da carga policial no dia 22-março-2012 sobre a população em geral, incluindo turistas. Estas provas demonstram à saciedade que a manifestação convocada por aqueles movimentos não provocou quaisquer desacatos – pelo contrário, foi vítima de um plano premeditado de agressão brutal.

Cabe agora perguntar: premeditado por quem? Apenas pela polícia? Hmmm...

This article is presented in three languages, in order ​​to be given to the knowledge of the international community, particularly the Greek workers.

While I was writing the previous article, I still harbored a candid illusion: I was hopping that Arménio Carlos (the secretary-general for CGTP union) would retract his infamous charges of vandalism thrown to the autonomous movements, that he would make a self-criticism and present an apology, having examined all the evidence proving the police charge on 22-March-2012 against the population, including tourists. These solid evidence show that the demonstration called by those movements did not cause any disrespect - on the contrary, the demonstrators were the victims of a premeditated plan of brutal aggression.

It is now the time to ask: premeditated by whom? Only the police? Hmmm...

Cet article est présenté en trois langues à fin de être délivré à la communauté internationale, en particulier les travailleurs grecs.

En écrivant l'article précédent, j'ai toujours nourri une illusion candide: je m'attendais que Arménio Carlos retirerait ses accusations infâmes de vandalisme jetés aux mouvements autonomes, qu'il ferait une auto-critique présentant des excuses, après avoir examiné toutes les preuves materiels de la charge de la police le 22-Mars-2012 sur la population en général, y compris les touristes. Ces preuves suffisent à montrer que la manifestation appelée par les mouvements autonomes n'a pas commis de vandalismes - au contraire, les manifestants on été les victimes d'un plan prémédité d'agression brutal.

Maintenant il faut demander: prémédité par qui? Seulement la police? Hmmm ...


Arménio Carlos, o campeão da direita nacional

Citando o secretário-geral da CGTP:

«nós entendemos que todos têm o direito de exprimir e de se manifestar nas ruas, mas nós não aceitamos actos de vandalismo. Nós não admitimos actos de vandalismo, e portanto pela nossa parte condenamos aqueles acontecimentos que ocorreram esta tarde no Chiado, nomeadamente com outros movimentos»
[sic, em directo na TV]

Arménio Carlos, the champion of the national right wing

Quoting the CGTP secretary-general:

«we agree that everyone has the right to express and manifest on the streets, but we do not accept acts of vandalism. We do not accept acts of vandalism, and so we condemn those events that occurred this afternoon at Chiado, in particular with other movements»
[his own words alive on TV]

Arménio Carlos, le champion de la droite nationale

Citant le sécretaire général de la CGTP:
«nous sommes d'accord que tout le monde a le droit de s'exprimer et de se manifester dans les rues, mais nous n'acceptons pas les actes de vandalisme. Nous n'acceptons pas les actes de vandalisme, et donc pour notre part, nous condamnons les événements qui ont eu lieu cet après-midi au Chiado, en particulier avec d'autres mouvements»
[ces propres mots en direct à la télé]

Arménio Carlos, o campeão da direita internacional

Citando o secretário-geral da CGTP:

«na Grécia o que aconteceu não tem nada a ver com a luta dos trabalhadores ou do movimento sindical grego, foram sempre iniciativas organizadas por outras entidades, nalguns casos com infiltrados da polícia, para denegrirem a luta dos trabalhadores»

[citado por um jornalista]

Arménio Carlos, the champion of the international right wing

Quoting the CGTP secretary-general:

«what happened in Greece has nothing to do with the struggle of the workers or the Greek trade union movement, it was always events organized by other entities, in some cases infiltrated by the police, to denigrate the struggle of workers»

[his words transcribed by a journalist]

Arménio Carlos, le champion de la droite internationale

Citant le Secrétaire général:

«ce qui s'est passé en Grèce n'a rien à voir avec la lutte des travailleurs ou le mouvement syndical grec, c'était toujours des manifestations organisées par d'autres entités, dans certains cas infiltrés par la police, pour dénigrer la lutte des travailleurs»

[ces mots cités par un journaliste]

29/03/12

Galeria de facínoras e traidores

O texto que segue assenta no seguinte pressuposto, demonstrado pelos factos descritos mais adiante: 
Já não é possível falar em simples oposição ao poder e aos partidos instalados no poder; encontramo-nos claramente numa fase de resistência, na plena a acepção do termo – incluindo questões de segurança pessoal dos activistas e dos movimentos cívicos. Estas questões são da maior gravidade e incluem o atentado à integridade física, à liberdade e à carreira profissional dos activistas. Já não existe meio termo possível: ou se está com estes activistas perseguidos e os seus objectivos de luta, ou se está pidescamente do lado dos opressores.
Não entender ou ignorar estes dados de partida significa nada entender do que se está a passar neste país. 

16/03/12

Compadrio, opacidade e sociopatia


O «compadrio» é uma norma de comportamento na sociedade portuguesa.

O âmbito do compadrio (não no sentido das relações de parentesco, mas no sentido lato de norma de relacionamento) é muito vasto – organiza relações pessoais, comerciais e profissionais; acarreta a corrupção material, intelectual, política e ideológica; cultiva o favoritismo abusivo e a cumplicidade em crimes de pequena e média envergadura.

20/01/12

A imperfeição em todo o seu esplendor

Aqui há dias meteu-se-me na cabeça escrever-vos acerca da característica mais marcante da nossa época: a capacidade de produzir e tolerar múltiplas mundivisões, perspectivas e modelos. Não era minha intenção falar-vos desses assuntos, que são enfadonhos, mas sim da sua consequência prática: se esperavam poder alcançar um dia a perfeição, tirem daí a ideia - a perfeição assenta no modelo único; portanto, numa sociedade caracterizada pela multiplicidade de modelos, a ideia de perfeição torna-se uma coisa sem sentido.

10/01/12

Mais uma aventura israelo-americana

É possível que o público engula a campanha de agressão montada pela dupla israelo-americana, tanto em consequência de anos de propaganda, como pelo facto de uma mentira ser mais eficaz quando temperada com algumas verdades à mistura - neste caso, o carácter despótico dos poderes públicos iranianos. E no entanto...

27/12/11

Inevitável era a tua tia

Alguém dizia aqui há dias que a constante de todos os discursos, comentários e opiniões da actualidade é a palavra «inevitável», «inevitabilidade».
Para tentar perceber uma das facetas e significados desta teimosa constante, proponho que revisitemos dois velhos mestres: Paul Langevin e Albert Camus.

13/12/11

Aguinha!

Agüinha! Agüinha! Agüinha!

manifesto indolor, inodoro e insípido

Camaradas:
O simples facto de as pessoas continuarem a ter sede, de insistirem em beber, demonstra que todas as actuais marcas de água não saciam a sede.
É preciso acabar com a sede de uma vez por todas!
Por isso decidimos pôr fim ao sofrimento do povo, dessedentar as massas e começar a produzir uma água mais pura que a dos outros aguadeiros, incluindo o recém-formado Partido das Hormonas. A este não dedicaremos mais do que um período: os aguadeiros hormonados não matam a sede porque sofrem de ciclos quadrados, o que faz com que a sua água tenha vértices e arranhe na garganta, provocando ainda mais sede.

Apesar de a nossa água provir exactamente das mesmas fontes doutrinárias que a dos outros aguadeiros, que são as de Hidro e de Oxi, acreditamos que

a nossa água é mais pura, mais insípida, mais inodora, mais transparente, mas sobretudo mais dura!
A nossa água é mais pura e dura porque tem um neutrão a mais que as outras todas!

Camarada, junta-te a nós e vem fazer uma água mais insípida, mais inodora, mais dura!
Viva a água dura! Morte à sede!

11/12/11

Fugiu-lhe a boca para a verdade

O ex-primeiro-ministro José Sócrates afirmou, numa conversa informal, que as dívidas soberanas são eternas; que o seu pagamento integral será sempre impossível; e que apenas resta geri-las.


Quase todos os responsáveis e comentadores políticos entraram em histeria com estas afirmações, o que não deixa de ser significativo e até divertido.

A comoção das reacções causadas pela afirmação desta verdade elementar procura justificar-se nas responsabilidades de José Sócrates na gestão da dívida durante cerca de 6 anos de governo. Esta desculpa esfarrapada e despropositada não chega para disfarçar um facto: a tirada de Sócrates abala uma estratégia política (sobejamente usada pelo próprio Sócrates) que consiste em induzir na população um medo-pânico perante as consequências do eventual não pagamento total ou parcial da dívida externa. Se esta estratégia de medo fosse anulada, provavelmente assistiríamos à revolta de largos sectores da população que de momento aceitam submeter-se a terríveis medidas de austeridade em nome... do pagamento da dívida!

A rematar as suas declarações, Sócrates afirmou: «foi isto que eu estudei em economia». Se ele estudou ou não, não sei dizer, mas lá que tem razão, não restam dúvidas - os fundadores da economia como ciência (se é que tal coisa pode existir) bem o afirmaram há mais de um século. Daí para cá, a criação de dívida soberana como processo apropriação dos recursos colectivos por parte do capital privado tornou-se uma arte sofisticada.

Depois de, ao longo dos séculos, terem sido apropriadas todas as terras comunais, todos os meios de produção individuais e comunais, e toda a força de trabalho, onde hão-de ir os grandes interesses privados sacar novos capitais? Já nada mais resta para saquear, senão os recursos colectivos elementares (a água, o ar, o sol, etc.) e os recursos colectivos construídos (a segurança social, as pensões de reforma, os meios e vias de comunicação, saneamento, etc.).

O sistema de crédito obedece a uma regra básica e incontornável: para que o credor conceda um crédito, o devedor deve oferecer alguma garantia em troca - no caso do consumidor comum pode ser o seu salário ou a sua casa; no caso duma população inteira, a única garantia possível consiste nos recursos colectivos.

Quando uma dívida é integralmente reembolsada, as garantias oferecidas regressam ao seu dono original. Ora, se o credor pretende apropriar-se precisamente dessas garantias, então estaria trabalhando contra si próprio ao permitir a criação duma dívida passível de ser integralmente reembolsada. A única forma de o credor se apropriar da garantia que pretende adquirir (por exemplo, as pensões de reforma) consiste em fornecer um crédito em espiral, impossível de reembolsar. Se o credor não encontrar forma de gerar uma dívida impossível de pagar, então desiste do negócio - não fornecerá mais crédito, porque o interesse que o movia já não pode ser alcançado. Curiosamente, esta realidade é totalmente inversa daquilo que nos é explicado pelos responsáveis políticos e pela comunicação social, que passam a vida a ameaçar-nos de que deixaremos de ter crédito se deixarmos a dívida soberana entrar numa espiral imparável.

José Sócrates tem toda a razão no que disse. Fugiu-lhe a boca para a verdade, ao menos uma vez na vida. A única coisa que lhe faltou dizer foi que existem alternativas à gestão da dívida infinita - essas alternativas passam pelo repúdio do processo de endividamento.