Tudo o que de importante havia a dizer sobre a
oferta duma cátedra a Passos Coelho já foi dito – o oportunismo,
o carreirismo, a trafulhice administrativa, o compadrio elitista e
partidário; enfim tudo foi já suficientemente esmiuçado. E se um
desses professores que há décadas aguardam em vão o acesso à
cátedra, em desespero de causa e ao ver-se ultrapassado por um
simples licenciado, abraçasse o terrorismo como solução de todos
os seus males, poderia contar com a minha compreensão, ainda que não
com a minha simpatia. Compreende-se também a indignação dos 28
professores que assinaram uma petição pública, argumentando que «A
atribuição do grau de catedrático a Pedro Passos Coelho, mesmo sem
cadeira designada, constitui um atropelo flagrante ao estatuto da
carreira docente universitária em Portugal» (ver aqui
e aqui).
Contudo há um aspecto contextual que não deve ser ignorado: não
estamos a falar duma escola universitária qualquer, trata-se do
ISCSP – um facto que torna a cátedra justificável, como passarei
a explicar.
«Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa: salvar a humanidade.» - Almada Negreiros
22/03/18
05/03/18
Novo anedotário neoliberal (3) – Inovação tecnológica, trabalho e natureza
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| (Pat Stacy, técnicas mistas sobre tela, s/d) |
Embora a questão da relação entre a ciência e
a produção seja discutida há pelo menos dois séculos, ela é-nos
apresentada hoje como uma novidade emergente. Já
falei aqui sobre este tema, do qual acabei por extrair duas
conclusões: 1) quanto mais poderosa a tecnologia, tanto maior o
poder de quem controla os meios de produção; 2) este aumento de
poder justifica o reforço da protecção dos assalariados e a
aplicação, por parte destes, de contra-medidas. Pretendo agora
falar-vos da relação entre tecnologia, forças produtivas e
natureza.
18/02/18
O crime compensa
Limito-me a constatar factos: o crime compensa.
Não falo do pequeno crime do carteirista, do agressor, do frango
roubado no supermercado – esse pode compensar ou não, consoante os
caprichos do acaso. O que compensa segura e impunemente é o crime em
larga escala, aquele que rende milhões de dólares, que afecta a
vida de milhões de pessoas, que apenas pode ser praticado graças a
uma maquinaria complexa que envolve aparelhos de Estado, gabinetes de
advogados, equipas de marketing, …
Compensa o assassínio em massa por envenenamento:
o dos químicos lançados no pão e em centenas de outros alimentos
da dieta básica; o da água engarrafada em plástico; o dos
refrigerantes que transformam o corpo num campo de batalha química e
biológica. Compensa com lucros de milhões de euros e beneficia de
apoios estatais. É um crime sádico, porque morrer de cancro é um
martírio atroz que se arrasta durante meses, terminando num
sofrimento irremediável. É um crime consciente e calculado, porque
ninguém, nos dias de hoje, pode dizer: «oh, desculpem lá qualquer
coisinha, eu não sabia».
O assassínio em massa não se limita a envenenar
os cidadãos. É acompanhado do roubo dos bens públicos, porque a
invalidez, a doença e a morte pesam enormemente sobre o Sistema
Nacional de Saúde (SNS). Quando umas quantas empresas produtoras de
químicos nocivos levam para casa lucros astronómicos, não é só o
consumidor individual que paga os lucros do criminoso – todos os
contribuintes estão a pagar os custos de saúde pública daí
resultantes. O mal causado pelas empresas assassinas, ainda por cima,
é desnecessário; não encontra uma única justificação –
durante séculos foi possível fazer o comércio de produtos frescos
ou conservados sem adição de químicos letais. O único motor para
o uso de venenos nos alimentos e no ambiente é a ganância.
17/02/18
Polícia moral on-line
Pessoalmente não sou frequentador do Facebook. Em
contrapartida participo em rodas de amigos que, por sua vez, são
frequentadores do Facebook. Por essa via inteirei-me de várias polémicas que
têm circulado nas redes sociais a propósito da vaga de censura
puritana que grassa por aí.
14/02/18
Novo anedotário neoliberal (2)
todos os dias em horário nobre, num televisor perto de si
13/02/18
Novo anedotário neoliberal (1)
todos os dias em horário nobre, num televisor perto de si
Está em curso uma nova campanha que visa
demonstrar a necessidade de reduzir os direitos de quem trabalha e
emagrecer (ou «flexibilizar», como se diz por aí) a legislação
laboral. Os temas centrais desta campanha são: 1) a automação,
modernização e robotização do trabalho; 2) a concorrência no
mercado internacional. Não é certamente por acaso que os
noticiários, debates televisivos e tribunas de opinião, congressos,
encontros mundiais, conferências, insistem obsessivamente em trazer
à baila, a propósito de tudo e de nada, esses temas. Trata-se
obviamente de uma campanha bem orquestrada, com ramificações
jornalísticas, académicas e políticas. O seu objectivo é
justificar a precarização do trabalho e desmantelar as protecções
e os direitos dos trabalhadores.
Abordarei os dois
temas em vários artigos,
começando pela robotização.
06/02/18
Caquexia, homeostasia e damásia
Quantos me conhecem de muito perto sabem da minha
repugnância – vá, digamos, da minha desconfiança –
pela filosofia em geral. Esta atitude é tão vincada desde a minha
juventude que, ao deparar-me com a disciplina de filosofia na escola,
sem a qual não poderia progredir nos estudos, decidi abandoná-los
de vez – antes a ignorância que a cadeira de Filosofia, tal foi o
meu grito. Esta teima tem um senão: como quase nunca tive pachorra
para sofrer até ao fim esses marcos do pensamento ocidental (e bem
assim os do oriental), não me encontro em condições de fazer uma
crítica sistemática às respectivas obras. Aliás não creio que ela
vos faça falta.
Em todo o caso sou capaz de vos apontar muito
sinteticamente o busílis da questão, do meu ponto de vista: de modo
geral as obras filosóficas consistem em má poesia; têm quase tudo
da poesia, em quase tudo são poesia, excepto no que diz respeito à
qualidade literária ou poética e ao elevado discernimento inerente
à boa poesia. Em suma, na sua
esmagadora maioria os filósofos consagrados são maus poetas que,
por vergonha, se mascararam de mestres da lógica; mas que também
nisso não são grande espingarda.
11/01/18
Considerações sobre a inteligência artificial
Está na berra falar de inteligência artificial e
até num paraíso do futuro onde as máquinas inteligentes tratariam
da nossa vidinha, podendo nós simplesmente repousar à sombra da
bananeira e suspender o trabalho esgotante da nossa própria
inteligência. Deixo aqui alguns reparos a esse propósito, juntamente com uma homenagem final a Isaac Asimov.
Comecemos por umas quantas pérolas de tautologia
colhidas na Wikipedia:
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