Mostrar mensagens com a etiqueta 25 de abril. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 25 de abril. Mostrar todas as mensagens

12/01/16

A infantilização da população portuguesa


Se há coisa que me bule com os nervos é o hábito eleitoralista de elogiar a «maturidade democrática» da população portuguesa. Esta prática hipócrita e bajuladora é em tudo equivalente à do amigo que se chega à nossa beira com grandes elogios à beleza dos nossos olhos; sabemos que daí a minutos vai cravar-nos 500 paus.
Na sua versão mais objectiva e material, a palavra maturidade remete para um desenvolvimento pleno das capacidades físicas, mentais e produtivas que se esperam de um ser adulto e que permitem exercer os actos necessários aos objectivos pretendidos, incluindo a força quando necessário. A maturidade exprime a nossa capacidade de avaliar uma situação, de sopesar os prós e os contras para decidir o que nos convém e o que não nos convém; define, em suma, o nosso grau de autonomia.
Há pessoas que nascem, vivem e morrem sem nunca conseguirem atingir a maturidade plena; serão sempre dependentes de um tutor, duma mulher que lhes confecciona o jantar, dos bens e rendimentos da família, da opinião dos familiares, dos amigos ou dos chefes para tomarem uma decisão. São um peso para a sociedade, embora a sociedade os tolere por tradição.
A maturidade colectiva duma população deve ser entendida de forma semelhante. O que conta na avaliação da maturidade colectiva é a capacidade de tomar decisões autónomas e de as implementar. O que conta não é a avaliação mais ou menos moral, teórica, exterior, das decisões autonomamente tomadas (fez bem, fez mal, etc.), mas sim o processo interno de avaliação, tomada de decisão e execução da decisão tomada.
Vistas as coisas assim, resulta evidente que só houve um período da história contemporânea durante o qual a população portuguesa entrou decisivamente no caminho da maturidade: no período de 1974-1975. Durante esse período as populações debateram entre si o que mais lhes convinha, tomaram a iniciativa, puseram em prática muitas das suas decisões (frequentemente à revelia dos poderes públicos). Não interessa aqui saber se tomaram ou não as decisões que cada um de nós aprova e julga mais correctas – isso é a visão subjectiva ou moralista das coisas. Interessa saber que estavam no caminho da maturidade, da autonomia. Não delegaram, não esperaram pela decisão e pela iniciativa de tutores – agiram autonomamente.
À época, os políticos defensores da democracia «representativa» e tutelar desataram num berreiro: ai jesus que estão a levar o meu petiz por maus caminhos, ai as más influências (na circunstância as más companhias apontadas eram o PC e as organizações revolucionárias), ai que o meu menino está a tornar-se independente e já não me obedece!
A aventura da maturidade foi atalhada pela força das armas, em 25 de novembro de 1975. Foi uma espécie de palmatoada – porta-te bem, se não queres levar mais. Depois do açoite, veio a fase das falinhas mansas e dos tagatés. Passado pouco tempo, depois de comprovadamente quebrada a espinha da vontade autonómica, iniciou-se a implantação do neoliberalismo.
O que vemos hoje é uma população levada a um estado de infantilização extremo. A capacidade de decisão e acção autónoma está morta e enterrada. A população portuguesa comporta-se (no seu conjunto, entenda-se) como uma criança incapaz de sobreviver por si mesma, sem vigor cívico, sempre dependente das decisões dos seus tutores (que neste momento se situam quase sempre lá longe – já não lá longe em Lisboa, mas mais para os lados de Bruxelas), incapaz de lhes fazer frente, convencida de que, se não vierem ao fim do dia cuidar dela, morre de fome à noite sem jantar.
Esta população sem rumo próprio sorve avidamente as notícias dos jornais e dos blogues onde distantes autoridades académicas debitam palpites sobre a sua (delas, populações) situação. A maturidade crescente a que assistimos em 1975, que fazia com que as populações dissessem: «precisamos de habitações, queremos habitações decentes, e nós é que vamos dizer o que é uma habitação decente, como se faz, como se urbaniza, onde se implanta, que meios existem e que meios faltam para as construirmos, porque essas habitações são para nós lá habitarmos, não são para os patos-bravos nem para os senhores ministros» – essa atitude extinguiu-se plenamente. A população portuguesa está de regresso ao útero materno, tornou-se totalmente dependente, incapaz de avaliar as suas necessidades e o modo de satisfazê-las. Este progressivo retorno ao útero reduzi-la-á em breve a um zigoto. Esperemos apenas que esse zigoto não se transforme no ovo da serpente, como já aconteceu.
Aqueles que têm o descaro de vir a público dizer «ai que menino tão precoce, tão maduro, bilu-bilu-bilu», merecem, a meu ver, que um piano vindo do céu lhes caia em cima e os reduza à massa nojenta de que são feitos.
Poderão vocês contrapor que o mesmo poderá certamente dizer-se de todos os povos europeus. Pois, está muito bem, façamos de conta que sim; mas quando se olha por exemplo para Espanha, aqui ao lado, percebe-se que há uma diferença, apesar de tudo, ou não?

24/04/14

25 de Abril lava tudo mais branco

Na euforia da celebração do 25 de Abril, todos os «militares de Abril» são metidos no mesmo saco. Todos são tratados por igual. Esta igualdade de tratamento esconde umas quantas diferenças essenciais.


Nem todos os «militares do 25 de Abril» estiveram sempre do mesmo lado da barricada; nem todos têm o mesmo tipo de responsabilidades na evolução dos acontecimentos. Metê-los a todos no mesmo saco por atacado é o tipo de lixiviação da história que nos trouxe ao triste ponto de confusão mental onde hoje nos encontramos.
Durante o PREC, em 1974-1975, uma parte das forças armadas foi-se colocando, pouco a pouco, ao serviço das populações – tendo por isso de virar costas ao patrão-Estado, visto que este e aquelas se encontravam em oposição radical –, rompendo assim com a razão de ser última do código militar.
No 25 de Novembro de 1975, um conjunto de oficiais resolveu repor a «ordem» – isto é, repor as forças armadas, na sua totalidade, ao serviço do Estado (de um certo tipo de Estado, precisamente aquele que hoje conhecemos e padecemos). Aos oficiais, sargentos e praças que se tinham posto ao serviço das populações durante ano e meio, foi dada ordem de rendição e prisão. Esta ordem veio de oficiais que, embora também eles tenham participado no derrube da ditadura, não estavam dispostos a mudar de patrão. Esses oficiais, mantendo-se fiéis a um certo tipo de Estado, mantiveram o useiro desprezo pela população civil, para a qual olham (para todos os efeitos práticos) como uma espécie de gentios que é preciso manter na ordem.
Dadas as regras de comportamento e honra vigentes dentro das forças armadas, os vencedores do 25 de Novembro trataram os militares vencidos com cortesia e honra (pelo menos exteriormente) e por isso todos podem sentar-se hoje à mesma mesa de comemorações, todos podem frequentar a mesma associação, trocar opiniões e livros entre si, pagar rodadas uns aos outros. Quanto à população civil, como sempre, passou-se-lhe um atestado de menoridade mental e foi metida na «ordem» – os caminhos do poder popular nascentes em 1975 foram atalhados pela força das armas e as opções que cada «militar de Abril» tomou nesse instante (pelas populações ou pela «ordem») não podem ser esquecidas.
O que esteve em causa no 25 de Novembro não foram 30 ou 40 oficiais e respectiva tropa; foi o destino de 10 milhões de portugueses e de umas quantas dezenas de milhões de descendentes. Que os militares «esqueçam» este pequeno pormenor, que a todo o custo mantenham a distinção entre população militar e população civil, não espanta, faz parte. Que nós outros façamos o mesmo, isso não só espanta, como é até sinal de alguma indigência mental.
Pedem-nos hoje que branqueemos o pacote inteiro dos «militares de Abril»; que achemos muita graça a alguns dos heróis do 25 de Novembro que agora se armam em pregadores contra o regime que eles próprios colocaram no poder. Não podemos, sem incorrer em cinismo, alinhar num tal branqueamento. Compreende-se que os Vasco Lourenço deste mundo queiram enaltecer o seu próprio papel nos acontecimentos; que lancem bravatas inconsequentes, gritando «agarrem-me, senão vou-me a eles» (eles = os membros dos últimos governos); que façam de conta que estão a defender a honra de toda a caserna e os três vinténs de uma dama que já ninguém sabe quem foi. Nós, entretanto, não podemos confundir os que em 1974-1975 se colocaram ao serviço das populações, com os que se colocaram ao serviço dos poderes económicos e políticos. Não podemos esquecer nem branquear essas diferenças, sendo certo que os actuais poderes económicos e políticos não diferem um milímetro dos que em Novembro de 1975 retomaram as rédeas do país à custa de um golpe militar, ainda que as suas políticas imediatas pareçam formalmente diversas.