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14/10/19

Autonomia combativa: uma experiência de campo


Auto-organização defensiva em sistema complexo dinâmico
Realizou-se há dias um debate organizado por sindicalistas: «Opressão e Exploração das Mulheres e Luta Feminista: Como deve o sindicalismo incorporar as questões e reivindicações das mulheres trabalhadoras?».[1] A minha curiosidade levou-me a visitar o debate, onde tentei fazer uma experiência de campo. A minha ideia era produzir uma acção para colher uma reacção e daí extrair as devidas conclusões, ainda que limitadas ao reduzido universo ali presente.

19/10/18

O estupro do debate político



O último Prós e Contras, de 15-10-2018, teve como mote o movimento #MeToo. Acessoriamente deu-nos uma ideia da dimensão da decadência do debate político.
Para quem não conhece: o Prós e Contras é um programa de debates emitido semanalmente na RTP1, apresentado por Fátima Campos Ferreira e animado por um painel de 6 convidados não residentes que dão as suas opiniões sobre um tema proposto e que às vezes acabam a ofender-se uns aos outros; tem uma plateia de estúdio que também participa no debate; e usa mecanismos telefónicos para pedir opinião aos telespectadores.
 
O programa começou mal, ao lançar o seguinte mote: «O movimento Mee Too contribui para a igualdade entre homens e mulheres?». A pergunta enviesou a discussão logo à partida. Perguntar se uma coisa, qualquer coisa, contribui para igualdade entre homens e mulheres é uma indagação que tem sempre lugar, pela simples razão de que praticamente tudo na nossa sociedade é atravessado pelas desigualdades de género. Estas desigualdades têm milhentas facetas – físicas, sexuais, laborais, culturais, … –, tendo algumas delas uma componente essencial: a violência. A multiplicidade destes comportamentos sociais justifica o recurso a múltiplas frentes e instrumentos de luta para acabar com eles
  
Quanto ao #MeToo, é um movimento que milita contra a violência sexual e o assédio sexual, usando como arma de combate a denúncia e o julgamento em praça pública. Estávamos portanto perante um tema invulgarmente claro e preciso.

26/03/18

Como mulher ou com as mulheres?


 
Quanto mais frágil é o movimento social, o projecto político e a mobilização das populações em torno de um tema social, tanto maior o chinfrim, a zaragata tertuliana, o choque entre grupelhos e pessoas, por dá-cá-aquela-palha. Esta é uma regra segura para auscultar a saúde dos movimentos sociais.
 
Há dias assistimos a uma dessas chinelices: um enorme chinfrim nalgumas páginas de internet em torno duma «Oficina de Urbanismo Feminista» organizada por Mulheres na Arquitectura e anunciada assim: «As cidades, os bairros, as ruas são os próprios campos de trabalho, reflexão e proposição, também campos de batalha» e assim: «oficina destinada a pessoas que se identificam como mulheres». Como estamos na era do Facebook, é difícil saber se o que lemos representa mesmo o pensamento das autoras ou se resulta de desleixo ou inépcia na escrita. Por mim, parto do princípio que, ao escreverem «como mulheres», as autoras pretendem significar «com as mulheres» ou «com as causas das mulheres», visto que doutra forma se geram possíveis conotações sexistas e perpassa como que o apelo a um modelo passadista de mulher – ou, mais simplesmente: a um modelo identitário qualquer.
 
Não me estranha que alguém organize um convívio, uma reunião, um debate ou um seminário estritamente reservados a clientes habituais. Se os bares fazem isso, se os partidos fazem isso, se as ordens profissionais fazem isso, se o governo faz isso (a diplomacia secreta é uma instituição consagrada e tacitamente aceite pelos eleitores), por que carga d'água não poderiam fazê-lo as arquitectas feministas?