14/10/19

Autonomia combativa: uma experiência de campo


Auto-organização defensiva em sistema complexo dinâmico
Realizou-se há dias um debate organizado por sindicalistas: «Opressão e Exploração das Mulheres e Luta Feminista: Como deve o sindicalismo incorporar as questões e reivindicações das mulheres trabalhadoras?».[1] A minha curiosidade levou-me a visitar o debate, onde tentei fazer uma experiência de campo. A minha ideia era produzir uma acção para colher uma reacção e daí extrair as devidas conclusões, ainda que limitadas ao reduzido universo ali presente.

Logo a partir da primeira intervenção as correntes em presença ficaram perfeitamente claras. Apesar das suas variantes, podem resumir-se em 3 eixos principais:
  1. «O feminismo é anti-socialista»; o patriarcado/machismo está extinto na sociedade portuguesa; a igualdade (de direitos, entenda-se) entre homens e mulheres já foi alcançada, por isso a questão feminista não tem mais razão de ser; o feminismo divide o campo dos trabalhadores, enfraquecendo a luta no seu conjunto; a luta autonomizada das mulheres nunca as levará a lado nenhum, apenas a libertação dos trabalhadores no seu conjunto pode garantir a libertá-las[2]; em suma, os sindicatos não devem perder o seu tempo com esta questão. Para simplificar, no contexto deste artigo, chamarei a esta corrente, minoritária na sala, antifeminista[3].
  2. O feminismo é uma causa justificada na realidade vivida pelas mulheres; permanecem na nossa sociedade traços claros da opressão, exploração redobrada e discriminação das mulheres; o patriarcado e o machismo subsistem; a situação particular das mulheres leva muitas delas a não quererem ou não poderem participar na luta sindical; é necessário que os sindicatos atendam aos problemas específicos da condição feminina e reinventem formas de mobilização e participação adequadas, para trazerem mais mulheres para o campo da luta sindical; em suma, existem boas razões para os sindicatos atenderem à questão feminista (sendo claro que o feminismo é abarca muitas correntes, algumas delas pouco aconselháveis). Para simplificar, no contexto deste artigo, chamarei a esta corrente, maioritária na sala, feminista[3].
  3. Posição vacilante ou indefinida; pedidos encarecidos no sentido de evitar uma conclusão final que de alguma forma vinculasse o conjunto dos sindicalistas ali presentes. No contexto deste artigo, chamarei a esta corrente conciliatória, porque parecia mais preocupada em salvaguardar a figura de proa da posição minoritária do que em avançar no debate.
Não foram alcançadas conclusões definitivas – nem creio que fosse essa a intenção da assembleia ali reunida –, ficando mais ou menos claro, ainda que não garantido organicamente, que o debate deve continuar. 
Representação gráfica de um sistema complexo
 
A experiência que eu levava em mente consistia na apresentação de uma tese que postula a necessidade da autonomia organizativa de todos os grupos sociais oprimidos e com interesses específicos,[4] em particular as mulheres, como condição sine qua non para a sua libertação.
Hipótese: dado um grupo social (ou classe, se preferem) com interesses específicos, a tese da autonomia organizativa consiste no seguinte:
  1. Nenhum outro grupo, no conjunto da sociedade, está em melhores condições de avaliar integralmente a natureza e a extensão dos interesses específicos do grupo em questão. (Corolário 1: é falsa, paternalista e moralista a ideia de que certas elites ou vanguardas exteriores ao grupo estariam em melhores condições de entender os seus interesses.)
  2. Cada elemento do grupo, isoladamente, não tem condições para tomar consciência plena dos interesses em presença. É necessário que se organize colectivamente para os identificar; é necessário que discuta colectivamente os problemas que atravessam a sua vida, eliminando sucessivamente as visões assentes no interesse mesquinho de cada elemento, até encontrar o denominador comum a todos os elementos do grupo. (Corolário 1: há grupos sociais que têm à partida melhores condições para se reunirem e tomarem consciência da sua situação; exemplo clássico: os operários das grandes unidades de produção. Corolário 2: existem subgrupos cujos interesses específicos, à partida, parecem não fazer parte do denominador comum; exemplo: as mulheres e os negros.)
  3. O grupo, já constituído e na posse de uma visão global sobre o seu lugar no mundo das relações sociais, fica então em condições de avançar para acções organizadas que visam alargar a sua esfera de influência (propaganda) e adoptar estratégias e formas de luta.
  4. depois de estar organizado de forma autónoma, depois de ter definido os seus interesses específicos, só depois de ter esclarecido até onde está disposto a ir e como fazê-lo, fica na posse de um conjunto de poderes que não detinha anteriormente. Pode então sentar-se à mesa de negociações com os seus opositores isto se entretanto não tiver conseguido eliminar por outros meios as raízes dos seus problemas.
Esta tese é universal, tanto vale para os trabalhadores de uma fábrica ou de um sector de produção, como para as mulheres, os homossexuais, os afro-descendentes, os ciganos, os reformados, os estudantes, etc. Sendo universal, vale também para os grupos sociais opressores, que infelizmente têm dela uma consciência muito mais aguda do que os grupos sociais oprimidos – jamais passaria pela cabeça a um grupo de patrões, administradores ou banqueiros reunirem com os seus empregados antes de terem definido claramente os seus interesses, a sua estratégia e o seu terreno preferido de combate.
 
Imaginem, por hipótese, que os assalariados de um determinado sector colocam como objectivo final sentarem-se à mesa de negociações para obter aumentos salariais. A tese da autonomia combativa permite-nos prever que se, logo à partida, em vez de se organizarem de forma autónoma, saltarem directamente para a fase 4 descrita acima (em termos práticos: se fizerem assembleias mistas com assalariados, patrões e administradores para discutirem os problemas que os afectam), estão condenados ao fracasso e muito provavelmente verão a sua situação agravar-se. Este princípio tanto vale para assalariados, como para mulheres, grupos étnicos, povos, … 
  
A minha intervenção na assembleia de sindicalistas, na mira de ver qual seria a reacção, foi expressa da seguinte maneira: as mulheres devem reunir-se e organizar-se de forma não mista, autónoma, se quiserem fazer valer os seus interesses específicos e entenderem a natureza da dupla opressão a que estão sujeitas; se isto não acontecer, o sindicato não tem a mínima hipótese de as ajudar a combater de forma eficaz os factores de opressão; pelo contrário, arrisca-se a agravá-los.
 
Devo dizer em abono da verdade que o facto de apenas dispor de 7 minutos para explicar tudo isto (uma limitação imposta não por maldade, mas pelo simples facto de haver muitos inscritos e uma quantidade finita de tempo) levou a que o fizesse de forma inepta e incompleta. Foi portanto uma experiência falhada, da qual não posso extrair conclusões seguras quanto à reacção da assembleia, que foi esquiva ou nula. Note-se que, com uma única excepção, o debate foi feito em tom muito amigável, e é neste duplo contexto de inépcia (minha) e urbanidade (da assembleia) que entendo o facto de a minha exposição não ter recebido nem apoio nem refutação, suscitando apenas um silêncio cortês.

---------------------------

[ Imagens colhidas do «Blog Cidadania e Cultura» de Fernando Costa Nogueira ] 

Notas: 
[1] Perdoem se não cito nomes de promotores e intervenientes, mas o clima de maledicência que grassa tão facilmente nas redes sociais leva-me a usar de cautelas para não o alimentar.
[2] Declaração tanto mais estranha, quanto veio da boca de uma historiadora reconhecidamente competente. Já para não falar no facto de que, se a libertação e a igualdade das mulheres perante os homens já foi alcançada mas só é possível como resultado da libertação conjunta de todos os trabalhadores, estamos perante um oxímoro, visto que os trabalhadores, no seu conjunto, ainda não se libertaram de coisa nenhuma.
[3] Peço ao leitor que não tente extrapolar das expressões «feminista» e «antifeminista» denotações ou conotações mais além do contexto aqui expresso.
[4] Para traduzir a expressão «interesses específicos» em termos práticos, imaginemos um exemplo diminuto: uma família. A família no seu todo é capaz de se unir em torno de um interesse comum, sem qualquer espécie de divisionismos internos: reivindicar um nível de rendimentos mais elevado, ou seja, alinhar num combate social alargado. No entanto, os interesses que movem cada membro da família podem não ser integralmente uniformes: o homem gostaria talvez de ter um excedente de 140 € para ir ver o seu clube de futebol jogar em Espanha, a mulher gostaria talvez de dispor de um excedente de 140 € para levar a família à praia e a jantar fora (ganhando assim uma folga doméstica) e o filho/filha adolescente apreciaria talvez um excedente de 80 € para ir a um jantar de amigos seguido de uma noite de borga. A questão principal consiste em saber quem detém o poder de dispor ou distribuir esse excedente, tanto dentro como fora do agregado familiar.

Sem comentários:

Enviar um comentário