29/09/26

IA: se calhar precipitei-me

 

Imagem concebida pelo autor e materializada por IA (AI Painting Generator)

Há cerca de seis meses publiquei um artigo no qual defendia a tese de que a IA seria «um instrumento inerte, sem alma, sem vontade própria». Venho agora humildemente reconhecer que essa abordagem foi insuficiente.

29/07/26

A liberdade de hackear

 Ao passar em revista alguns dos meus arquivos, dei de caras com um comentário (que, evidentemente, não publiquei) a uma das minhas crónicas, com data de 23/03/2018:

«Você está convidado a terra maravilha de hacks, (...)
Nós oferecemos toneladas de serviço (...)

22/07/26

O ministro ventoinha

Imagem concebida pelo autor e materializada por IA

Fernando Alexandre, formado em economia e gestão, actual ministro da Educação, Ciência e Inovação, é uma daquelas figuras que fizeram currículo à custa da Fundação para a Tecnologia e Inovação1 (FCT). Detém a pasta da Educação desde 2024 e … adivinhem qual foi uma das suas principais acções no cargo, em 2025: extinguir a FCT, substituindo-a por uma empresa pública: a Agência2 para a Investigação e Inovação, EPE3 (dita ANI2).

14/03/26

IA: o busílis da novidade

 

Imagem concebida pelo autor e gerada artificialmente por Crayon


Grassa enorme controvérsia sobre a inteligência artificial (IA na versão portuguesa, ai-ai na versão anglófona), em muitos casos, a meu ver, passando ao lado do essencial. A IA, para começar, é apenas um instrumento – um instrumento inerte, sem alma, sem vontade própria, à espera de ordens (prompts) para produzir qualquer coisa.

27/12/25

André Ventura deveria ser quimicamente capado

 


O burburinho levantado pelos cartazes de André Ventura na campanha eleitoral para as presidenciais não releva de qualquer conteúdo excepcional dos ditos cartazes, não é nem mais ofensivo nem mais agressivo que seu costume ao longo dos anos.

Há muito tempo que André Ventura apresenta este tipo de agressividade, violência, ódio e comportamento ofensivo. Sempre contra os mesmos grupos sociais. É uma monomania em roda livre, uma disfuncionalidade metonímica que transforma qualquer caso individual em generalidades abstrusas – os ciganos são isto, os paquistaneses aquilo, os homossexuais aqueloutro. Ao longo de semanas, meses e anos, a agressividade alarve de Ventura bate sempre na mesma tecla, é um piano desdentado com monótona regularidade monomaníaca – nada de novo por esse lado.

Infelizmente, esta insanidade mental, à semelhança de todas as insanidades mentais, de todas as disfuncionalidades comportamentais e cognitivas, é contagiosa – o riso, o choro e a loucura são extremamente contagiosos e estão a tomar conta da população em geral, não porque ele seja próximo de nós, mas graças à projecção mediática de que ele goza. Isso está bem à vista no dia-a-dia, no comportamento e na construção frásica de cada vez mais portugueses. Por isso vai sendo tempo, penso eu, de tomarmos medidas correctivas, em nome da sanidade colectiva. 

Ora, como se explica o comportamento obsessivo-agressivo constante de Ventura? À primeira vista poderia ser um problema de cultura individual ou familiar; mas se assim fosse, num sujeito com estudos e posto perante o contraditório permanente, por certo o próprio já teria corrigido esse comportamento disparatado. Resta por conseguinte a hipótese do desarranjo hormonal, contra o qual o próprio doente não pode lutar por vontade própria e sem intervenção externa. Temos pois de ajudá-lo. 

Sendo bem possível que um dia destes ele consiga fazer aprovar na Assembleia da República uma lei de castramento químico, devemos preparar-nos para introduzir na proposta de lei emendas que permitam aplicá-la a vários tipos de casos – nomeadamente o do próprio Ventura, cujas gónadas parecem estar a levá-lo à loucura. 

Por mim, entre o tratamento químico e o tratamento físico, venha o diabo e escolha. Mas visto que o próprio Ventura parece achar o tratamento químico mais civilizado, menos bárbaro que o físico, ponhamos a faca de lado e administremos-lhe a pílula.

24/11/25

O 25 de novembro e as forças da ordem

 


Durante várias décadas a elite política portuguesa instalada no poder teve o bom senso de não levantar demasiadas ondas quanto ao 25 de novembro de 1975 – o golpe militar que pôs fim ao PREC (Processo Revolucionário em Curso, 1974-1975). Este ano, porém, a direita mais descerebrada fez questão de celebrar a data, soprar as velinhas e cantar parabéns a si mesma. Esta iniciativa, por sua vez, desafiou um leque variado de autores a analisarem mais a fundo os acontecimentos históricos de novembro de 1975.

13/11/25

Quem paga a guerra?

 


O debate entre os defensores da paz e os promotores da guerra não tem produzido o efeito pretendido. Pelo contrário, tendeu a estigmatizar, difamar e isolar os defensores da paz. No que diz respeito à falta de resultados práticos, a prova dos nove é fácil de tirar: o debate não gerou transformações sociais, não mobilizou as populações e não deu origem a novas formas organizativas dos explorados e oprimidos.

Talvez a primeira razão deste fracasso resida no facto de os argumentos pró e contra a guerra terem por regra um carácter marcadamente abstracto. Trata-se de uma discussão que se arrasta há séculos, sempre no domínio da filosofia e da moral.

31/10/25

Os chungas têm de cumprir a lei


 

O partido Chunga apresentou um projecto-lei que estabelece normas de vestuário para certos segmentos da sociedade. 

Como sabemos, os partidos existem para promover os interesses de classe de determinados grupos sociais e propor um projecto de sociedade concordante com esses interesses. 

No que diz respeito aos interesses de classe, a natureza do Chunga é bem conhecida e muito clara: defende os interesses de toda a espécie de meliantes – gatunos, burlões, mercenários, carteiristas, carroceiros, caceteiros, assassinos. 

Já quanto ao projecto de sociedade, o Chunga emite sinais contraditórios – uns legítimos, outros de duvidosa legitimidade – que desorientam o debate político e deixam os tribunais à toa quanto à sua legalidade/legitimidade. 

A nova proposta do Chunga visa completar a já aprovada lei que proíbe o uso de burcas e niqabs. Essa lei, segundo o Chunga, é muito incompleta e falha parcialmente os objectivos propostos. Entre outras normas de vestuário, o projecto-lei proíbe o uso, em lugares públicos, de: 

  • óculos escuros, que impedem a identificação automatizada (além de serem muito desconfortáveis para os interlocutores, pois quando falamos com uma pessoa de óculos escuros, em vez de lhe vermos os olhos, vemos a nossa própria imagem); 
  • véus, lenços de cabeça e outros adereços que tapem as orelhas, também estas usadas para identificar roboticamente as pessoas; 
  • calças justas nos quadris, por destacarem os glúteos das mulheres e o pacote dos homens, o que é atentatório da moral e dos bons costumes propugnados pelo Chunga; 
  • várias outras normas de indumentária derivadas do «princípio da igualdade e da laicidade do Estado», da «igualdade entre homens e mulheres», dos «princípios de liberdade, igualdade e dignidade humana» e do «respeito pela dignidade das mulheres»; neste sentido, por exemplo, os homens passarão a ser obrigados a usar saias, pelo menos duas vezes por semana, devendo para o efeito picar o ponto, por assim dizer, exibindo-se diante de uma câmara de vigilância em lugar público e levantando a saia para provar que são homens. 

De início, esta aparente teima do Chunga em impor normas de vestuário deixou-me perplexo. O que teria isso a ver com os interesses chunguistas? Além disso, aparentemente, as novas normas legais seriam discriminatórias, o que é contrário à lei geral. 

A minha perplexidade desfez-se casualmente, ao viajar na carreira do eléctrico 28, em Lisboa, onde pude observar a extraordinária técnica coordenada de dois carteiristas que, recorrendo a apertos e empurrões, conseguiram separar os homens das mulheres, os portadores de câmaras fotográficas, os portadores de mochilas, os portadores de bolsas de mão, etc., facilitando assim o trabalho do elemento da equipa encarregado de surripiar os haveres dos turistas. É, de facto, uma magnífica demonstração de mestria técnica que me fez compreender a necessidade imperiosa (do ponto de vista chunguista, entenda-se) de separar a população em grupos, de forma a melhor ser surripiada. 

Como toda a gente sabe, um véu que cubra a cara pode ser substituído por uma máscara higiénica, com boa justificação profiláctica. Por conseguinte, é fácil deduzir que o que está em causa no projecto de lei chunguista não é a segurança pública, mas sim a divisão da população em grupos estanques, mesmo quando não existe oposição de interesses entre esses grupos, facilitando assim a defesa dos interesses das classes representadas pelo Chunga. 

Desse ponto de vista, as propostas do Chunga são perfeitamente legítimas, pois correspondem à defesa dos interesses de classe dos meliantes. A proposta inicial contemplava uma excepção para os chungas, que poderiam usar máscara quando se encontrassem em serviço. Contudo, por imposição dos constitucionalistas e sob o argumento de que até os chungas têm de cumprir a lei, o partido teve eliminar essa excepção.