20/03/13

Partam-lhes as pernas!

[actualizado em  21/03/2013]

Ao longo de várias gerações sob ditadura (cerca de 48 anos) os portugueses foram educados no medo. Aprenderam a sufocar a resposta às violências de que eram vítimas.

A seguir, após a instauração da democracia representativa e do estado de direito (1976), este mesmo povo sofreu durante 37 anos uma lavagem ao cérebro – foi-lhe continuamente inculcado que não está certo responder com firmeza e até com violência, se necessário, à violência exercida pelo Estado e pelo patronato.



No total, com um pequeno interregno de 2 anos, é um período 87 anos (quase um século!), de condicionamento pavloviano à resignação, à submissão mansa, à cobardia, a comer e calar. Um período tão longo é mais do que suficiente para alterar comportamentos culturalmente adquiridos. Os carrascos que executaram esta política de Laranja Mecânica vêm de todos os quadrantes, sem distinção nem diferença de grau na sua aplicação – da direita e da esquerda, do PC, do BE e respectivas fracções, do PS, do PSD, do CDS. Através de altifalantes instalados nas ruas (faz lembrar certos filmes de ficção orwelliana, não é?), uns e outros declamam continuamente a mesma lengalenga hipnótica: Nós não somos violentos! Nós não somos violentos! Nós não somos violentos! ...


É preciso mudar este estado de coisas! É preciso encontrar formas de descondicionar essas mentes mortas-vivas que se arrastam de casa para o emprego, da tasca para o centro de emprego, que rastejam por toda a parte neste país como lesmas indefesas.

Acerta-lhes onde dói mais

A maioria das pessoas (eu incluído) está a tal ponto condicionada, que não conseguirá reunir coragem suficiente para fazer o óbvio: por exemplo, mostrar a um polícia de choque ou a um inspector da ASAE que, se abusar da sua autoridade e do seu monopólio da violência, pode um dia ser caçado numa ruela escura e acabar no hospital com duas pernas partidas. Ou seja, ensinar-lhe que pode ter de aprender o respeito pelo seu semelhante da forma mais dolorosa.
Mas a sociedade moderna condicionou toda a gente em várias outras direcções, e não apenas a respeito do monopólio estatal e empresarial da violência. Entre outros condicionamentos, encontramos o fetiche pela acumulação, pela posse de bens dispendiosos, acessórios, etc. Por isso os cobardes (entre os quais me incluo) podem tirar partido desses condicionamentos pavlovianos. Por exemplo, para muitas pessoas dói mais a destruição da sua propriedade do que uma paulada nos rins. Então, é preciso acertar-lhes onde dói mais.


És obrigado a trabalhar de borla, ou até a pagar para trabalhar?
Rouba o mais que puderes o teu patrão e a empresa. Sabota-lhe as máquinas, as fotocopiadoras, a betoneira, corta-lhe os fios do telefone e da rede digital, fura-lhe os pneus do carro, despeja-lhe decapante em cima da chapa do carro – puxa pela imaginação e encontra todas as formas possíveis de o obrigar a gastar mais dinheiro (muito mais, 10, 20, 30, 100 vezes o salário mínimo) com prejuízos materiais do que gastaria se te pagasse um salário decente.


O teu patrão despediu um colega porque ele não foi trabalhar por doença?
Sê solidário, faz ver que toda a ofensa feita a um de nós é sentida por todos nós.
Provoca-lhe prejuízos materiais, de preferência irrecuperáveis. Envia uma queixa anónima à ASAE e à inspecção de trabalho a propósito de qualquer ilegalidade no local de trabalho (com as leis actuais, é impossível que não haja uma ou várias ilegalidades). Inferniza-lhe a vida, envia à esposa fotografias dos almoços com a amante. Tempera-lhe o chá de forma a que ele tenha de ficar 3 dias em casa com diarreia.
Puxa pela imaginação, deixa bem claro que não adianta despedir (pôr fora do alcance físico e laboral) um de nós, porque todos os outros responderão à ofensa!


As comissões organizadoras dos congressos académicos obrigam-te a pagar para apresentares um trabalho, em vez de te pagarem?
Se tiveres coragem suficiente, quando chega o momento de pegares no microfone para fazeres a tua comunicação, faz uma introdução a denunciar o trabalho escravo e o facto de teres de pagar o teu próprio trabalho.
Se estiveres condicionado pela cobardia que nos foi inculcada, ao menos tenta roubar-lhes ou destruir-lhes os laptops quando eles não estiverem a ver, vai ao bengaleiro e fura-lhes os casacos, publica fotografias comprometedoras dos organizadores, … – puxa pela imaginação! Faz-lhes ver que não podem usar o pequenino poder que lhes foi atribuído para achincalharem os colegas!


Apreenderam-te o material de pesca e impuseram-te uma multa por pescares dois peixes num rio para complemento da tua dieta de subsistência?
Se não tens coragem para partir as pernas ao fiscal numa azinhaga perdida na noite, ao menos destrói-lhe o carro, ou pelo menos os pneus; a uma hora a que ninguém esteja em casa e nenhum inocente corra perigo de vida, incendeia-lhe a casa – puxa pela imaginação! Faz-lhe ver que, como agente da autoridade, sai-lhe muito caro ser teu inimigo, mais vale ser amigo e protector.


Um fiscal da ASAE inferniza a vida à tua tasca preferida, proíbe aqueles pastelinhos de bacalhau caseiros de que tanto gostas?
Junta-te aos outros clientes, faz uma barreira à porta da tasca, ameaça-o de morte. Se não tens coragem para tanto, ao menos descobre onde ele mora, destrói-lhe a propriedade pela qual ele tenha maior fetiche. Puxa pela imaginação, inferniza-lhe a vida!


Sabes onde mora aquele polícia que baleou de morte um adolescente que seguia de mota sem capacete?
Destrói-lhe a casa. Destrói-lhe o carro. Se ele tiver cães de caça num armazém, rouba-lhos. Se sabes onde ele costuma ir beber um copo, envenena-lhe a bebida.
E, se tiveres coragem suficiente, torna-o inválido para o trabalho de patrulha e repressão. Senão, puxa pela imaginação, inferniza-lhe a vida até ele perceber que do exercício da agressão e assassínio só lhe pode vir desgraça e prejuízo!


Um dirigente político ou sindical, num comício ou em qualquer outro acto público, faz a defesa da resignação, apela à passividade não violenta?
Bombardeia-o com ovos, tomates, batatas, bolas de tinta. Não o deixes fazer uso da palavra! Demonstra que chegou a tua vez de tomares a palavra, que ele não pode ter o monopólio da palavra em teu nome; corta-lhe o microfone, mostra-lhe que não estás disposto a admitir mansamente que até dirigentes de esquerda se comportem impunemente como agentes da direita e do patronato!


Um dirigente sindical ou político, ou um activista duma organização de desempregados, prega o direito ao trabalho?
Bombardeia-o com tomates, ovos podres, bolas de tinta, corta-lhe o microfone, parte-lhe os altifalantes – mostra que a palavra de ordem mínima que estás disposto a aceitar é «direito ao trabalho com dignidade», embora mesmo isso ainda seja pouco. Mostra que não estás disposto a aturar agentes encapotados do patronato, nem discursos que não sabem distinguir entre o trabalho escravo e a dignidade humana.

Setúbal, 1º Maio 2011

Um dirigente de esquerda sobe ao púlpito para defender que seja renegociada (=paga do teu bolso) uma dívida que não contraíste nem resulta em teu proveito, mas sim em proveito dos bancos e dos patrões?
Corta-lhe a palavra. Diz que não estás disposto a pagar, que não queres renegociar coisa nenhuma que seja contra os teus interesses. Impede-o de falar, como fizeste com esse paladino da dívida chamado Relvas. Que merda de ser humano és tu, se a um cortas a palavra e a outro aplaudes, quando ambos dizem o mesmo?



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