20/05/24

Onde a disfuncionalidade roça a criminalidade

 

Imagem de um general disfuncional, criada por inteligência artificial @ Craiyon

Numa reportagem apresentada na rubrica «60 Minutos» da SIC, dia 19/05/2024, às 15:07, foi gravado um rol de afirmações aflitivas. Vale a pena comentá-las.

29/03/24

A ultradireita em pratos limpos

 

Nos primeiros 18 dos 24 cantos da Ilíada, Aquiles amua e recusa-se a ir a jogo. Isso não impede bastos comentadores de o darem como herói e personagem central da Ilíada

Finalmente todo o campo progressista começou a tomar consciência da verdadeira dimensão da ultradireita em Portugal. Não por um esforço de análise racional, mas simplesmente porque as 50 cadeiras da bancada parlamentar do partido Chega, eleitas em 10-03-2024, lhe caíram em cima com a brutalidade inesperada de um piano lançado do 7º andar.

05/08/23

Desandem daqui, emplastros

 

Puppy, de Jeff Koons, 2010 [CC BY-SA 4.0]

As pessoas mal informadas, ainda que bem-formadas, pensam que Portugal vive um sufoco agónico, uma espécie de hipérbole troikiana de miséria e drama, com salários inferiores às rendas de casa, reformas minúsculas que não cobrem despesas de farmácia, dietas farináceas de austero pão e esparguete, serviços públicos em colapso, mães solteiras que, por terem ficado sem casa, perdem os filhos sabe-se lá para quem e por mor de que negócios, e um primeiro-ministro que anuncia hoje um aumento de 15 euros nas pensões de velhice e na semana seguinte, pela calada, as reduz a 65 % do que eram.

04/04/23

Os autarcas fora-da-lei

 

fora-da-lei
(by ToniCzech via Pixabay)

Antes de discutirmos o que de bom e de mau existe no actual plano político do Governo para a habitação, temos de relembrar que ele não cria nada de novo; limita-se a pôr em prática a Lei de Bases da Habitação (LBH)[1], aprovada em 2019 e entretanto deixada em banho-maria.

05/02/23

O grau zero da consciência

 


Pasmei quando, há dias, ouvi uma representante da associação nacional de pais dizer na televisão que a luta dos professores estava a prejudicar as crianças, o direito dos pais ao trabalho e a missão da escola pública. Tive de usar o comando da televisão para ouvir várias vezes, não fosse eu ter entendido mal.

08/09/22

In facebuko veritas

 https://outraspalavras.net/wp-content/uploads/2017/01/16409219_10210009845895400_1354376722_o.jpg

Apesar de não ter uma página no Facebook, não paro de ser diariamente bombardeado com notícias do dito. Chegam-me elas a casa envoltas em longas e enfadonhas recitações, pressurosamente entregues por amigos e conhecidos, quais marçanos ou moços de fretes das transnacionais.

Uma das coisas que nunca deixará de me surpreender no Facebook é a sua capacidade inebriante e viciante, de alguma forma comparável à do álcool. Porém, ao contrário do álcool, o Facebook, que eu saiba, não provoca morte por cirrose, mas antes uma espécie de loucura carregada de disfuncionalidades, no que se assemelha ao álcool. O efeito inebriante (do Facebook e do álcool) leva o utente a baixar os seus escudos e espartilhos comportamentais, a mostrar-se tal qual é – «in vino veritas».

Para que fique claro e para evitar ofensas desnecessárias: conheço gente que usa do álcool (ou do Facebook) com civilidade, conta, peso e medida. Contudo, por regra, o utente do Facebook acaba por tornar-se um autêntico diabo da Tasmânia: ofende o seu semelhante a torto e a direito; torna-se trauliteiro, intolerante, chauvinista, ameaça de morte. Grande parte dos posts publicados no Facebook exsudam ódio enraivecido à humanidade em geral e às opiniões adversas em particular.

Apelando às teses de Ivan Illich, diria eu que o Facebook se tornou um exemplo perfeito dos efeitos mais nefastos da industrialização (neste caso a indústria das «redes sociais») quando esta excede as barreiras naturais que deviam contê-la e se substitui à afabilidade [1]. Reformulando, por palavras minhas, que me perdoe Illich: se o Homem (europeu) era a medida de todas as coisas nas sociedades pré-capitalistas, a indústria (global) passou a ser a medida de todas as coisas nas sociedades capitalistas – sendo o Facebook um exemplo óbvio de industrialização das relações humanas e das redes sociais.

Igualmente surpreendente é o facto de os modernos instrumentos industriais de comunicação social terem feito perder de vista um facto que costumava pairar sobre a cabeça de qualquer pessoa que empunhasse uma pena, nem que fosse um semianalfabeto lavrando um recado escrito: aquilo que nós escrevemos e assinamos hoje, permanece para toda a eternidade, ainda além da nossa morte, e por fim, desfeita a carne e carcomidos os ossos, é a única coisa pela qual poderemos um dia ser avaliados. Esta consciência parece morta, o que não deixa de ser óptimo para o despudor.

Como se verificou recentemente a propósito da demissão da ministra da Saúde, Marta Temido, muitos utentes do Facebook divorciaram-se dos princípios e métodos que proclamavam, para casarem com o seu oposto – aí está, «in facebuko veritas». Para meu grande espanto, vejo pessoas que, apesar de se dizerem revolucionárias, desculpam a ministra, dizendo que ela não quereria levar o Serviço Nacional de Saúde (SNS) ao descalabro a que ele chegou. O facto de alguém dizer que um ministro ou uma ministra pode governar contra sua própria vontade já demonstra o grau de insanidade mental a que se pode chegar: tudo quanto foi objectivamente feito pelo Ministério da Saúde nos últimos 11 anos é agora apresentado por estes defensores da ministra como um fenómeno do Entroncamento – os efeitos objectivos da governação não coincidiriam com as intenções subjectivas dos governantes, de modo que estes, coitadinhos, não teriam culpa daquilo que fizeram … embora o tenham feito. Se isto não é esquizofrenia em acção, então não sei que seja.

As mesmíssimas pessoas que acusaram o governo de Passos Coelho de ataque intencional e aleivoso ao SNS, vêm agora, perante um governo do PS que há 7 anos (sete!) perpetua e reforça as políticas neoliberais do seu antecessor, afirmar que não, coitadinhos dos governantes (os actuais, não os anteriores), não era isso que eles queriam fazer.

O simples facto de passar da análise objectiva dos factos para o julgamento de intenções (boas ou más, consoante as preferências e amizades pessoais dos inquiridores) mostra a que ponto chegou o despojamento intelectual de tantos escrevinhadores facebookianos. Mostra também, desgraçadamente, a que arrepiantes extremos poderão eles um dia chegar, já que a substituição da análise objectiva da realidade pelo julgamento de intenções é apanágio das correntes políticas mais tenebrosas, desde os tempos do absolutismo, passando pelos tempos do fascismo, até aos tempos do neoliberalismo na sua fase actual.

 

31/03/22

O descontrole emocional e o Ministério da Verdade

 

Uma das coisas que me aflige desde março de 2020 é a perda de controle emocional exibida por tantos jornalistas e comentadores – umas vezes de forma muito evidente (quando ao vivo, onde não é possível disfarçar o tom de voz, a fácies e a postura), outras menos, quando expressa por escrito. Muitas figuras públicas têm feito tristes figuras, das quais parecem não se envergonhar, talvez por serem já escravas da sua própria disfunção emocional e comportamental.

Uma das características das emoções fortes é serem elas extremamente contagiosas. É muito difícil conviver com o riso, o choro, a raiva ou o ódio sem deles participar. Isto significa que uma campanha de intolerância/ódio, adornada de descontrole emocional, levada a cabo 24 horas por dia nos media, terá um inevitável efeito patológico na generalidade da população. Por outras palavras, está-se a gerar uma sociedade carregada de disfunções cognitivas e emocionais que necessitarão de várias gerações para serem desfeitas. É, do meu ponto de vista, um autêntico crime contra a humanidade.

05/03/21

Não acredito em índices de estupidez iguais ou superiores a 100 %

 

«O Anjo Exterminador», de Luis Buñuel, 1962 – a burguesia em confinamento perde as boas maneiras e revela os seus instintos mais primitivos


Por motivo de trabalho e boa dose de descuido, achei-me em Peniche durante alguns dias, sem peúgas. Por coincidência, o dono da casa onde estive alojado rompeu os chanatos, de modo que ficámos ambos de pé descalço.

Isto não constituiria problema em tempos normais, mas em tempo de confinamento à moda do Costa a situação tornou-se crítica: todo o comércio se encontrava encerrado, com raras excepções, não se lobrigando onde comprar este tipo de artigos de primeira necessidade. Pus-me então a cirandar pela cidade, à cata duma excepção salvadora, e eis que, numa ruela qualquer, encontro uma loja de cosméticos aberta. Por sinal, a porta ao lado era uma loja de roupa (fechada, evidentemente). Vimo-nos pois, eu e o meu hospedeiro, perante uma situação deveras criativa: andarmos pelas ruas de pé descalço, sim, mas impecavelmente maquilhado.

Passados dois dias, chegou-me a notícia de que às portas da cidade havia um «armazém chinês» aberto. Meti-me ao caminho esperançoso. Entro na loja e, feita a saudação da praxe, pergunto: